Violência silenciosa vitimiza crianças e adolescentes

Os lares foram apontados como os locais mais perigosos para as crianças que sofrem violência e abuso sexual

 

Crianças e adolescentes sofrem abuso e violência dentro de casa. (Créditos: Ais Aquino)

 

 

 

A violência contra crianças e adolescentes é algo preocupante e não é recente. Historicamente o Brasil é marcado por registros assustadores e os relatos de violência infantil são facilmente localizados em todos os mecanismos de busca disponíveis na web. 

 

Vários fatores  contribuem para que isso ocorra: questões culturais, características do agressor e  da vítima, ausência de canais de comunicação seguros e confiáveis para a criança, medo de denunciar,  certeza de impunidade e a fragilidade dos serviços de proteção à criança e adolescente. 

 

Mas o que é violência contra criança e adolescente? "Violência é toda ação ou omissão em relação aos direitos compatíveis da criança e do adolescente, descritos no Estatuto da Criança e do Adolescente que resulte em algum dano físico, emocional, social, escolar ou a qualquer área do desenvolvimento. Provocar lesões ou deixar de atender os direitos também é violência." (Unicef).

 

Em relação à violência que ocupa lugar nas famílias paranaenses e atinge crianças na mais tenra idade, a reportagem da EntreVerbos conversou com a psicóloga Daniela Carla Prestes, responsável pelo acolhimento e atendimento das crianças vítimas de violência, no Hospital Pequeno Príncipe — referência no atendimento de crianças vítimas de violência sexual e maus-tratos em Curitiba e na região metropolitana - e que há 10 anos promove a campanha Pra toda Vida.

 

A psicóloga relatou que os casos atendidos no hospital não podem ser classificados por classe social, pois esta violência ocorre em todos os lugares. Ela salienta que todos os tipos de violência são acompanhados de terrorismo psicológico, ameaças, menos valia e desqualificação da vítima. A violência psicológica é silenciosa, não deixa marcas físicas e pode demorar para deixar uma evidência comportamental ou emocional, mas é tão danosa ou pior quanto outros tipos de violência.

 

 

Daniela cita os tipos mais frequentes de agressões físicas como: hematomas, queimaduras; edemas; queda de cabelos; fraturas; emagrecimento ou a combinação de todos estes. O abuso sexual é identificado quando ocorre laceração vaginal ou anal; rupturas; perda de sangue; situações que necessitam intervenções  cirúrgicas e ainda administração de medicamentos como AZT e antirretrovirais para prevenção de doenças sexualmente transmissíveis.

 

 

No Brasil, o ECA é a lei federal (8.069 promulgada em julho de 1990), que trata dos direitos das crianças e dos adolescentes. Mas o fato de termos uma lei não significa que a segurança de nossas crianças está garantida, ainda de acordo com a psicóloga, os registros e denúncias só aumentam. Somente em 2015, o Disque-Denúncia Nacional registrou mais de 80 mil ligações. "É importante estimular a denúncia e expor que ela pode ser anônima. Se observarmos que um adulto não está dando conta de zelar pelos direitos de uma criança ou adolescente, cabe a qualquer cidadão resguardar aquele menino ou menina. O adulto precisa ser o porta-voz", destacou a psicóloga.

 

Dados preocupantes

 

Mais de 60% dos casos de violência atendidos no Hospital Pequeno Príncipe acontecem em ambiente intrafamiliar, ou seja, são praticados pelos pais, avós, tios, padrastos, entre outras pessoas próximas à criança. "Esse tipo de violência pode atingir qualquer classe, cultura e religião. Além disso, o público acredita que quem é próximo da vítima, não faria algo tão maldoso dessa forma e a suspeita é amenizada", pontuou Daniela.

 

 Daniela Carla Prestes diz que o adulto precisa ser o porta-voz e denunciar. (Créditos: Denise Becker)

 

 

O tamanho do problema que está diante da sociedade

 

  • Diariamente, 18 mil crianças e adolescentes sofrem algum tipo de violência no país.

  • Apenas um caso em cada 20 é denunciado.

  • Em 2014 foram registradas 24.575 denúncias de violência sexual contra crianças e adolescentes no Brasil.

  • 19.165 casos de abuso e 5.410 de exploração sexual infantil.

  • O Hospital Pequeno Príncipe atendeu 378 vítimas de violência de diferentes cidades do Paraná em 2014, sendo 245 de violência sexual.

Fonte: Hospital Pequeno Príncipe, Disque Direitos Humanos, SIPANI, SIPIA e OMS. 

 

 

 A criança expressa de forma lúdica, aquilo que não consegue ou não pode expressar verbalmente. (Crédito: Denise Becker)

 

 

Perfil do agressor

 

 

Geralmente são homens com vínculos familiares à essa criança/adolescente, os relatos mais comuns são: pais, avós, padrastos, tios, irmãos mais velhos, amigos próximo à família. Segundo a psicóloga do hospital, alguém se tornar um agressor é uma questão psíquica, todas as outras questões polarizam. As situações sócio-econômicas e fatores psíquicos amplificam o risco para violência. "Se já existe um estabelecimento de relações agressivas na família, histórico de violência em relação à mulher e controle, são possíveis situações de agressividade nas famílias, ainda desemprego, prole numerosa e inúmeros outros problemas", afirmou Daniela.

 

 

 

Perfil das vítimas

 

Com base nos relatos da psicóloga, as vítimas geralmente são meninas com idade entre 0 - 6 anos e quem leva para o atendimento são as mães, avós ou responsáveis. O hospital acolhe, atende e encaminha, quem faz a denúncia é o familiar que aciona a Rede de Proteção à Criança e ao Adolescente em Situação de Risco para a Violência, composta por profissionais de diversos setores da Prefeitura Municipal de Curitiba, de diversas instituições governamentais, não-governamentais e sociedades científicas.

 

 

Como denunciar

 

O cidadão tem à sua disposição vários mecanismos para fazer denúncias. Sempre que você desconfiar de algo estranho na casa do seu vizinho, não se omita, inclusive você pode denunciar anonimamente. 

 

                                         Infográfico (Crédito: Denise Becker) 

 

Os sinais que as crianças dão ao tentar uma comunicação com os adultos, nem sempre são através da fala, elas tentam se comunicar de várias formas e os cuidadores precisam estar atentos ao seu comportamento. Ouça um trecho da entrevista com a psicóloga Daniela Carla Prestes.

 

 

Tentativa de suicídio

 

Daniela Carla Prestes conta que os registros de tentativa de suicídio estão ocorrendo  na pré-adolescência e o número de casos que chegam para atendimento vem aumentando desde 2015. São reflexos e reações  ligadas ao sentimento de não pertencimento do pré-adolescente e do adolescente no ambiente familiar, a falta de confiança nos pais, ou pais que não escutam os filhos e não participam ativamente da vida e desenvolvimento do adolescente. A psicóloga disse que os casos atendidos por ela estão cada vez mais frequentes e ocorrem com crianças a partir de 10 anos de idade.

 

Para complementar esta informação, a reportagem da EntreVerbos procurou um especialista para tratar do assunto, o psiquiatra André Prieto Accorsi. Ele relata que  realmente o atendimento nas emergências psiquiátricas tem aumentado e entre os motivos mais frequentes estão as tentativas de suicídio entre adolescentes. "Na América do Sul, é a terceira principal causa de morte, ficando atrás de homicídios e mortes acidentais". 

 

Com base na literatura médica, as causas mais comuns relatadas pelo psiquiatra são:

 

1 - bullying;

2 - violência física e/ou sexual;

3 - desestrutura familiar;

4 - opção sexual não compreendida/aceita.

 

Entre os fatores de risco, ou seja, quando há predisposição para o suicídio:

 

1 - uso de drogas;

2 - pertencer ao sexo masculino;

3 - transtornos mentais não tratados (bipolar, depressão e esquizofrenia);

4 - traços de personalidade disfuncionais.

 

Um alerta

 

 

O psiquiatra alerta para o cyberbullying, quando a agressão se passa pelos meios de comunicação virtual, como nas redes sociais, telefones e demais mídias virtuais. Embora as agressões não sejam físicas, as consequências podem ser tão ou mais graves que o bullying, onde há agressão física. "O uso frequente das redes sociais nessa faixa etária, 9 - 13 anos, podem levar ao suicídio e está associado a chantagem ou violência sexual e afeta mais adolescentes do sexo feminino."

 

 

O médico relembra o episódio com a canadense Amanda Todd em 2012, que postou um vídeo no YouTube contando ter sido vítima de chantagens sexuais. Recentemente, a jovem francesa Océane, postou o vídeo de seu ato suicida, ao vivo, em aplicativo, após alegar ter sido estuprada, em maio de 2016. André Accorsi reforça que conhecer as principais causas, somadas a uma abordagem eficiente, podem auxiliar na prevenção.

 

 

 

 

Campanha nacional contra violência de crianças e adolescentes

 

 

A EntreVerbos faz um alerta à população sobre a importância de denunciar os casos de violação dos direitos de meninos e meninas, prestar atenção para a situação de crianças muito pequenas e que podem estar expostas à situações de violência em seus lares. Nos últimos anos, a Secretaria de Direitos Humanos tem frequentemente lançado campanhas para sensibilizar a população sobre a necessidade de denunciar situações de violência. Veja um dos vídeos feitos para a campanha nacional "Não desvie o olhar. Fique atento. Denuncie. Proteja nossas crianças e adolescentes da violência."

 

 

 

 

 Nota

 

 

Tentamos o contato, por e-mail e telefone com a Secretaria de Educação do Estado do Paraná (SEED) e a Fundação de Ação Social  (FAS), para complementar as informações,  mas até o momento desta publicação, não conseguimos respostas por parte das assessorias da imprensa."

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

     

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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