O espaço das mulheres negras na moda

Num país ainda preconceituoso, as modelos negras lutam pelo seu espaço 

 

Christiane de Oliveira, formada em moda, é blogueira e personal stylist . (Crédito: Letícia Costa e Maria Laura Genkiwicz)

 

Um cliente que se recusa a ser atendida por uma funcionária negra, uma garota que cresceu escutando das coleguinhas que seu cabelo é ruim... Histórias como estas são comuns no decorrer da vida das mulheres afro-brasileiras. 

 

As mulheres negras sofrem duplo preconceito, pois  são vítimas do racismo e do machismo. Assim, a luta pela conquista do seu espaço, em qualquer segmento, se torna mais difícil. E cada vitória entra para história ganhando um sabor especial.

 

As mulheres negras sempre se fizeram presentes e foram muito importantes para a formação da sociedade brasileira. Mas, na mídia em geral, a ausência de representatividade sempre foi muito grande, apesar dos negros (pretos e pardos) representarem 53,6% da população brasileira segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). No âmbito da moda, são raramente vistos. Capas de revista, editoriais e desfiles são compostos, em sua maioria, por pessoas brancas. O padrão de beleza eurocêntrico é visto como o mais belo e aceitável.

 

A inserção de cotas nos desfiles de moda

 

Em 2009, a Semana de Moda de São Paulo  (SPFW), que é o desfile mais importante do País e reconhecido internacionalmente, assinou um termo de compromisso de ajustamento de conduta, com o Ministério Público do Estado de São Paulo, em que se comprometeu a sugerir que todas as grifes participantes do evento  contratassem pelo menos 10% de modelos negros, afrodescendentes ou indígenas, do total dos modelos de cada desfile. 

 

A exigência partiu da promotora Déborah Kelly Affonso, que teve como ponto de partida a SPFW de 2008, onde dos  344 modelos que desfilaram apenas oito eram negros. Entre os pontos de vista dos criadores do desfile, alguns foram contra e outros a favor das cotas.

 

Modelo Mahany Pery SPFW. Apontada como a nova geração de modelo do Brasil pela Vogue Americana. (Crédito: Reprodução/ Instagram

 

Em outubro de 2015, a ONG Educafro enviou uma notificação extrajudicial à Prefeitura de São Paulo, exigindo que os 10% de cotas fossem cumpridos na próxima temporada. De acordo com a ONG, o SPFW (Semana de Moda de São Paulo) não estaria cumprindo o tratado firmado em 2009.

 

Mesmo após as cotas, a incidência de modelos negras na passarela é pequena e muitas estão falando em ''moda para mulheres negras'' e ''moda para brancas''. Mas, afinal, existe mesmo essa distinção? Alguns criadores e grandes estilistas têm suas coleções pautadas em estampas e tecidos afro, como Issac Silva em A Casa Dos Criadores deste ano, que trouxe para a passarela questões raciais, nomeando sua coleção de Dandaras do Brasil. Para além de representatividade, Isaac incorporou em seu desfile mulheres ''reais'', fora do padrão das passarelas mundo a fora. 

 

Não existe diferenciação entre moda para brancas e negras

 

A personal stylist e blogueira Christiane de Oliveira acredita que não existe diferença na moda, pois uma mulher negra pode muito bem usar uma roupa feita por uma estilista branca e vice-versa. Segundo ela, ‘’se colocarmos estes tipos de padrões, estaremos entrando na base do preconceito. Cada um tem a sua maneira de se vestir e toda moda é bem-vinda ‘’.                                          

 

Christiane lutou para conquistar seu espaço no mundo da moda. (Crédito: Letícia Costa e Maria Laura Genkiwicz) 

 

A blogueira lembra que a ancestralidade afro traz consigo peças chocantes, cores amarelas, vermelhas, verdes, as pinturas e batons fortes. Um exemplo são os turbantes,  herança de países africanos, que realçam a beleza da pele negra. E dá a dica: ao vestir uma peça apagada, todo look vai apagar. Christiane também conta que adora cores: ‘’eu sou uma pessoa muito colorida, acho que o mundo fica mais alegre, o look fica mais alegre. Cores quentes deixam a pele negra muito mais linda’’.

 

 

Empoderamento na vida destas mulheres

 

A palavra empoderar significa dar poder a quem não tem. Durante muito tempo, as mulheres negras foram minimizadas em relação a quem eram e a sua beleza natural. A ditadura da chapinha e as roupas e acessórios que dominavam todas as mídias reforçavam a ideia de que para ser bela era necessário estar dentro dos padrões, quase nunca incluindo pardas e negras. Hoje pode-se dizer que estas mesmas mulheres estão se empoderando.

 

As mulheres negras de hoje  podem se sentir mais felizes e com a autoestima mais alta quando são representadas por outras com cabelo crespo, cacheado, solto ou armado. 

 

Dicas de maquiagem para morenas e negras

 

 Tons de bases e sombras que realçam a pele negra. (Crédito: Letícia Costa) 

 

A começar pela pele, "o mercado dos cosméticos está pouco preparado para os tons de pele mais escuros, sendo difícil de encontrar variedade”, diz Rutte Mello, 30 anos, consultora de maquiagem e profissional da área há alguns anos. 

 

Segundo ela, encontrar a base certa para cada tom de pele nem sempre é uma tarefa fácil. Rutte deixa a dica para quem procura o tom correto: o recomendado seria testar diretamente no rosto e não na mão ou pescoço, já que possuímos tons diferentes em cada região do nosso corpo. Se ao aplicar a base ela sumir, este é o tom ideal.

 

Para maquiagens em geral, a utilização de um bom primer antes da maquiagem é essencial, pois este produto fixa a maquiagem e fecha os poros do rosto. Sobre sombras, todas as cores podem ser usadas, mas as que irão realçar as peles negra e morena são as de tom cobre, dourado, verde e azul, principalmente as metalizadas ou cintilantes, que iluminam a pele. O marrom é o coringa e pode ser usado com qualquer tom de batom em qualquer ocasião, seja dia ou noite.

 

Rutte esta usando o batom vermelho que realça peles morenas e negras. (Crédito: Maria Laura Genkiwicz e Letícia Costa) 

 

A consultora sugere que a maquiagem para o dia seja composta por delineador, blush, rímel e batom, já que estes itens são de fácil aplicação. Já para uma make noite, pode-se acrescentar sombra marrom e lápis preto esfumados, adicionando um iluminador. 

 

Nesta make, ela utilizou lápis de boca para contornar marrom e batom marrom. (Crédito: Maria Laura Genkiwicz e Letícia Costa) 

 

Se desejar uma maquiagem mais pesada, preencha a sobrancelha, podendo escolher entre o castanho ou marrom. Para realçar,  ainda pode aplicar um lápis iluminador abaixo da mesma. 

 

Para dar o toque final, adicione um blush, preferencialmente os de tons mais quentes como vinho, laranja,ou um tom de pó mais escuro que sua pele, podendo dosar com o pincel a quantidade desejada. 

 

Tranças, dreads e afins

 

Nós do cabelo é um projeto social criado para inspirar e valorizar o uso do cabelo crespo sem criar estereótipos. A proposta relaciona os cabelos com o contexto histórico do corpo negro e sua identidade. Com o auxilio das redes sociais,  campanhas como esta têm ajudado muitas mulheres a se encontrarem e encorajarem umas as outras.  

 

Portanto, com o crescimento do uso das mídias sociais, não se tornou algo raro ver como as mulheres se juntam em prol de uma campanha e projetos sociais, que tenham a ver com sua realidade cotidiana. E isso não é diferente com as mulheres negras, que cada vez mais estão se unindo contra o preconceito racial e um padrão de beleza imposto pela mídia. 

 

Perfil Nós do Cabelo no Instagram. (Crédito: Reprodução/ Instagram)

 

A cabelereira especialista em estética negra, Débora Carolina de Pereira, 30 anos, do Salão Deby Tranças, possui um conhecimento grande sobre a relação entre o cabelo natural e a construção da identidade da mulher negra. “As mulheres não precisam seguir padrões de beleza impostos pela sociedade eurocêntrica”, afirma Débora.

 

A esquerda de Débora  podemos ver algumas fitas coloridas que são utilizadas nas tranças. (Crédito: Maria Laura Genkiwicz e Letícia Costa)


A cabeleireira pensa que a ideia de somente seremos mulheres belas e atraentes com cabelos longos e lisos é algo imposto.  “É algo inserido sócio-culturalmente e tem de ser desconstruído para que a mulher não se sinta pressionada a ser alguém que não deseja ser”. 

 

Débora também deixa algumas dicas para cabelos crespos e cacheados, lembrando que clima influencia muito no resultado que desejamos para nosso cabelo, assim como o tipo de cabelo. No Brasil, pode-se encontrar vários tipos de fios de cabelo, já que somos uma cultura miscigenada. 

 

Taís Soares é trancista e trabalha junto com Débora, ela ressalta que as cores das tranças podem ser variadas. Ela escolheu uma cor que destacasse seu rosto e combinasse com suas roupas.

 

 Táis Soares, além de trabalhar no salão, é modelo  (Crédito: Letícia Costa e Maria Laura Genkiwicz)

 

  (Crédito: Letícia Costa)

 

No vídeo abaixo Débora deixa um recado para todas as mulheres sobre autoestima:

 

 (Crédito: Letícia Costa e Maria Laura Genkiwicz) 

 

O depoimento de uma garota que passou pela transição capilar


Dandara Arruda, de 26 anos, é estudante de publicidade e propaganda  e tem o cabelo cacheado. Ela contou à equipe da EntreVerbos os motivos que a levaram a alisar seu cabelo e os que a fizeram abandonar o alisamento. ‘’Por muitas vezes me vi excluída porque não tinha os padrões que todos aceitavam como beleza perfeita. Meu alisamento foi feito porque eu era a única das minhas amigas que tinha o cabelo cacheado. Fiz pela 'moda da progressiva' e para ter um pouco mais de visibilidade".


Dois anos depois, após três progressivas e algumas sessões de hennê (um produto que alisa e tinge o cabelo), de tanto calor e produto forte, ela se  viu quase careca. E, em meio a uma crise de choro, resolveu fazer o tal “big chop’’. Lembra-se do susto de sua cabeleireira, quando pediu para cortar toda parte alisada. Ela relembra: "meu cabelo ficou com três dedos de cabelos cacheado, ainda não se ouvia falar sobre transição e produtos que nos ajudassem".


Ela diz que aprendeu muitas coisas e resgatou sua identidade. Por isso, nos conta: "preciso dizer que as tranças, me ajudaram muito. Ao contrário do que muitos pensam, as tranças ajudam no crescimento e fortalecimento capilar".


Hoje consegue ajudar muitas meninas, tanto no incentivo ao big chop, quanto aos tratamentos. Dandara sabe que é difícil realizar a transição capilar pelas poucas referências que existem. "É uma decisão difícil, mas que vale muito a pena", completa.

 

Na foto, podemos ver Dandara Arruda passando pela transição capilar (Crédito: Acervo Pessoal/ Dandara Arruda)

 

 

Please reload

Pessoas de todas as idades se rendem aos grupos de ciclistas

31.03.2020

Sem habilitação não tem trânsito seguro

17.03.2020

Um projeto de superação para além das quatro linhas

17.03.2020

1/3
Please reload

  • White YouTube Icon
  • White Facebook Icon
Revista online produzida pelos alunos do curso de Jornalismo
Siga a EntreVerbos
  • fb icon 2
  • yt icon 2
Revista digital produzida pelos alunos do curso de Jornalismo 
 

Centro Universitário Internacional| UNINTER |

Rua Saldanha Marinho, 131 – Centro | Curitiba-PR |

revistaentreverbos@gmail.com

Siga a Entreverbos

 Site projetado por Agência Experimental Grafita
Colaboração de layout por Guilherme Dias