Gazeta abandona o modelo antigo e aposta 99% no digital; leitores tradicionais ignoram a mudança

 

                                                                   O aposentado Arly Biolli lendo seu jornal (Crédito: Icaro Couto)

 

 

Há seis dias, o jornal mais tradicional do Paraná, a Gazeta do Povo, deixou de circular diariamente em sua forma impressa – apenas uma revista vai ser publicada nos fins de semana. Mas essa que poderia ser uma notícia trágica para os tradicionais leitores em papel, parece ser apenas um sinal de mudança, que se iniciou de forma tímida, mas que nos últimos anos veio para ficar: o leitor de notícias é digital. Seja em computador, tablet, notebook, mas principalmente pelo celular.

 

Interessada em averiguar se o fim da Gazeta impressa iria afetar os leitores mais tradicionais, a equipe da Revista EntreVerbos percorreu a Boca Maldita, por duas vezes, uma semana antes da mudança do jornal. Encontrou vários “cavalheiros da Boca”, porém apenas um lendo Gazeta. E ainda era um forasteiro de Goiânia que folheava o jornal enquanto engraxava seus sapatos. Ele nem quis comentar sobre a mudança do impresso para o digital. Mesmo nas rodas do tradicional Café da Boca, os senhores relatam que não leem mais Gazeta.

 

O aposentado Arly Birolli, leitor assíduo de jornal, conta que há anos não lê mais a Gazeta. Prefere os jornais gratuitos. Todos os dias, ele levanta cedo, pega ônibus no bairro Abranches até a Boca. “Chego antes das 7h30 para conseguir pegar o Metro e Jornal do Ônibus. E leio tudo. É um hábito”, conta o senhor de 72 anos, que estava sentado sozinho em um banco no calçadão da XV, sempre bem acompanhado de um jornal impresso. “Não gosto de computador, nem de celular. Mas não deixo de ler jornal. Tem que estar atualizado. Se eu não tomo um cafezinho, não leio o jornal, parece que falta alguma coisa”, conta.

 

Leitores como seu Birolli são hoje apenas 30% do público da Gazeta. Segundo um estudo encomendado pelo jornal paranaense, 30% dos seus leitores de impresso têm mais de 70 anos, sendo assim um público que vem envelhecendo com o passar do tempo. Essa mudança 99% digital trata-se da sobrevivência financeira e uma adaptação do modelo de negócios vigente.

 

>>> Confira a porcentagem de leitores de jornal impresso e digital em 2015 e 2016

 

De acordo com Ricardo Sabbag, editor da Gazeta do Povo, o fim do impresso é justificado e deve ser tendência mundial nos próximos anos. A Gazeta já estava percebendo essa perda de leitores no impresso há anos, mas, ao mesmo tempo, os estava recuperando em suas plataformas digitais. Segundo o Instituto Verificador de Comunicação (IVC) a Gazeta do Povo teve uma queda de 14,4% de assinantes da edição impressa em 2016, enquanto que na mesma época, os assinantes digitais foram de 2.695 para 14.462, crescimento de 436%.

 

 

 >>> Veja neste infográfico a porcentagem de formas de acesso à leitura do jornal impresso

 

Em 2014 o jornal começou a concentrar mais suas operações no ramo digital, contando com cerca de 4 milhões de visitas no seu site. Em março de 2017 conquistou um recorde de acessos, na casa dos 9 milhões de leitores que buscaram as notícias e informações no meio .

 

 

 

 

Uma repercussão nacional

 

Em partes, a cobertura da Operação Lava Jato contribuiu para que a Gazeta conquistasse leitores pelo Brasil afora, já que Curitiba é o centro das investigações. Tanto que parte do investimento da empresa na redação se deu em contratação de colunistas “nacionais”, de política e economia, boa parte trazendo notícias de Brasília. A intenção é deixar de ser um veículo regional.

 

O novo modelo proposto é apostar no aporte de novos assinantes no meio digital e investir no mobile first, ou seja, notícia primeiro para os meios móveis, principalmente celular. O novo modelo da Gazeta do Povo visa fazer com que o leitor custeie pelo conteúdo que deseja ler, em uma meta ousada e progressiva. A expectativa é que em 2019 a empresa equilibre as contas e pare de operar no “vermelho”.

 

Por décadas, nos grandes jornais ao redor do mundo, anúncios publicitários sustentaram a receita jornalística. Com o advento das redes sociais, as receitas publicitárias migraram do meio impresso para o online, sendo que mais de 90% dessa verba publicitária é voltada para o Google e o Facebook.

 

Segundo Sabbag, o “fim do impresso” também irá acabar com o trabalho dos diagramadores, fazendo com que toda a editoria de arte do jornal seja desligada, pois não se justifica um jornal que tem apenas uma edição no fim de semana manter toda a equipe. A parte da arte será terceirizada, feita por pessoas de fora da redação do veículo impresso. A redação como um todo ficou mais enxuta. Alguns repórteres se despediram dos colegas no último dia que o jornal deixou de circular.

 

O jornal também vai mudar de endereço. Do imóvel centenário, que é sede da Gazeta desde 1951, na Praça Carlos Gomes, passará, a partir deste segundo semestre, para um edifício de três andares no Tarumã, recém-construído. O novo prédio tem a cara do novo jornal: menor e mais moderno.

 

Daqui em diante, as matérias com assuntos de interesse local, serão produzidas e editadas no celular do repórter ou do editor, através de um aplicativo instalado no aparelho, que padronizará a produção e a dinamizará, gerando conteúdo produzido em tempo real. A notícia não tem mais hora para sair, fazendo com que o antigo chavão das redações: “parem as máquinas” nunca mais tenha sentido. Abaixo segue um trecho da entrevista que a redação realizou com o jornalista Ricardo Sabbag.

 

                                                                          Crédito: (Icaro Couto)

 

The New York Times é pioneiro na visão digital sem deixar

qualidade de lado

 

 

A transformação da Gazeta do Povo apresenta familiaridades com as mudanças ocorridas com o jornal americano The New York Times. Em julho de 2011,  Arthur Gregg Sulzberger, repórter e filho do presidente e editor da empresa Arthur Sulzberger, liderou a tarefa de reinventar o jornal americano baseando-se nas mudanças tecnológicas que revolucionaram o setor.

 

Analisando os avanços e as dificuldades do jornal tradicional diário, surgiram cinco sugestões para a empresa: criar uma equipe para monitorar a audiência do jornal, uma equipe de analistas da redação para avaliar tendências e as matérias mais lidas do jornal, outra de estratégia voltada para estudar o desempenho do periódico tradicional e o “Times” digital. Colaborar com setores comerciais e de assinaturas e prioridade na contratação para o segmento de jornalismo digital. Essas mudanças e estratégias apontadas pelo The New York Times decorreram da queda do faturamento da empresa. Em 2000, o jornal lucrou US$ 3,5 bilhões. Quatorze anos depois, a receita caiu para US$ 1,5 bilhão.

 

As boas notícias do próprio veículo voltaram ao NY Times em 2016, quando a estratégia de assinaturas digitais passou a dar resultados positivos: alcançou 1,4 milhão de assinantes, boa parte fora dos Estados Unidos. O corte de custos, queda do faturamento com a publicidade, perda de leitores e diminuição do tamanho do periódico vem sendo constante nos últimos anos, graças as novidades trazidas pela tecnologia e pela comunicação em rede. Mas o jornal nova-iorquino conseguiu um aumento de 10% em vendas de exemplares avulsos e assinaturas do jornal.

 

O The New York Times tornou-se mais digital graças à mudança de hábito do leitor. Assim como o jornal Gazeta do Povo, com a diferença de que o jornal norte-americano não desistiu da versão impressa. Outro que não desistiu do impresso e tem feito diversas contratações de repórteres e editores é o The Washington Post. Este também tem penado com a queda na venda de impresso, mas o que vem sustentando, inclusive seus acessos digitais, é o bom jornalismo, com furo de reportagens, de acordo com informações de matéria do New York Times, reproduzida na Gazeta do Povo na última edição impressa semanal.

 

 

Conteúdo de marca tem sido alternativa financeira em jornais tradicionais

 

 

 Ricardo Sabbag, editor do GPBC, conta sobre como a Gazeta do Povo entende o conceito de branded content. (Crédito: Icaro Couto)

 

O jornalismo e a publicidade vêm trazendo uma linha cada vez mais tênue com a ascensão do branded content, também conhecido como conteúdo de marca ou conteúdo patrocinado. Esse produto é um conteúdo noticioso que traz matérias de interesse, patrocinado por uma determinada empresa. O veículo leva um projeto para o patrocinador, ou este traz até o veículo jornalístico seus interesses de divulgação, que são transformados em pauta e matéria.

Essa tem sido uma forma encontrada pelas empresas de comunicação para trazer mais recursos financeiros. A Gazeta do Povo e o Estado de S. Paulo são exemplos de jornais tradicionais que criaram editorias apenas para gerar esses produtos.

 

Normalmente são assuntos que não se encaixam nas editorias dos jornais e não são cobertos pela redação. Um projeto pode ser criado por um determinado jornal, porém não é algo que a editoria possa cobrir com a dimensão que se quer dar a esse projeto. Dessa forma, o projeto criado é oferecido ao mercado comercial. Essa fórmula tem crescido na medida em que as empresas entenderam que investir em conteúdo – ainda mais em tempo de mídias sociais – dá um retorno tão bom quanto gastar com publicidade tradicional. Com a diferença de que o produto jornalístico dá credibilidade para aquela informação.

 

Na Gazeta do Povo essa fórmula deu tão certo que o jornal criou um núcleo de branded content, o Gazeta do Povo Branded Content (GPBC). Há cerca de dois anos, o jornal começou a criar as primeiras estratégias de comercialização desses conteúdos patrocinados. “Ele se difere do projeto jornalístico porque existe uma interferência do patrocinador. A pauta é discutida com esse patrocinador, porque vai tratar de um assunto que interessa a ele, mas não é um produto publicitário por extenso. Não é assim: o anunciante chega e fala ‘quero fazer uma matéria sobre determinado assunto que seja assim’, isso já existia, forma de informe publicitário”, conta o editor do GPBC, Ricardo Sabbag.

 

O informe publicitário aparece nas páginas explicitando ser um informe publicitário, pois está escrito. O conteúdo é 100% do patrocinador e aquilo está sendo pago como se fosse um anúncio, uma propaganda, porém está em formato de texto jornalístico. O conteúdo patrocinado conta com a participação do pauteiro e do patrocinador, que aprova a pauta, e a partir desta é realizado o trabalho jornalístico. Sabbag conta que esse é o trabalho que está sendo feito na Gazeta: o patrocinador propõe ou é proposto a ele uma pauta e após ser aprovada é feita a produção. A função da editoria de branded content na redação é de dar um tratamento jornalístico para o material a ser produzido.

 

Segundo o editor, a Gazeta entende o branded content como híbrido, tanto jornalismo como publicidade. É trabalhado um modelo diferente dos outros jornais, há um editor dentro da redação para fazer o trabalho jornalística e defender os princípios editoriais, nesse como o modo como se faz jornalismo e a responsabilidade que a Gazeta tem com o que se publica, há envolvimento direto da redação.

 

Não é um projeto puramente jornalístico. Sabbag complementa dizendo que não dá para confundir o que se faz quando há interferência do patrocinador com o que é feito na redação, onde as pautas não precisam ser aprovadas com ninguém. “Acho que procuramos defender o máximo possível a marca do jornalismo da Gazeta. A limitação é: a pauta tem que ser aprovada pelo cliente, então você vai aprovar com ele que tipo de assunto você quer abordar e como será feita essa abordagem. Aí existe uma questão importante que é a maturidade do mercado”, ressalta.

 

Nas primeiras experiências com branded content, os próprios anunciantes não sabiam explicitamente o que era. Os primeiros clientes tratavam como uma publicação do release da assessoria de imprensa. Com o tempo, a Gazeta foi estabelecendo certos padrões de qualidade e hoje o cliente entende que não é esse o serviço que terá. O conteúdo recebido é um assunto que interessa a ambos, mas com tratamento jornalístico. Sabbag diz ter clientes que sequer interferem no conteúdo e trabalham com essa liberdade, mas nem sempre é dessa forma pois o cliente ainda não está habituado com esse formato.

 

O Estadão recentemente lançou a plataforma Media Lab, que reúne seus projetos de publicidade. Serão oferecidas iniciativas de branded content, eventos, redes sociais, mídia impressa, digital e rádio. O esperado é ampliar a colaboração do desenvolvimento de projetos com os clientes e agora, deve haver um olhar mais voltado para esse segmento.

 

 

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