Superdotação ganha espaço na educação especial

Segundo dados do Ministério da Educação de 2014, mais de 13 mil crianças já foram diagnosticadas com altas habilidades no Brasil

 

 Os superdotados geralmente são mais criativos e interessados em diversos assuntos. (Créditos: Pixabay)

 

A superdotação é caracterizada pelo alto desenvolvimento de algumas habilidades, ficando acima da média normal da população. Segundo a chefe do Departamento de Educação Especial, Siana do Carmo de Oliveira Franco Bueno, existem duas categorias de altas habilidades/superdotação: a acadêmica e a produtiva-criativa, mas ambas podem se manifestar em um mesmo indivíduo.

 

Por ter suas aptidões concentradas na área linguística ou lógico-matemática, a acadêmica é a mais valorizada nas situações tradicionais de aprendizagem e é mais fácil de ser identificada pelas avaliações tradicionais de QI (Quociente de Inteligência) ou outros testes de habilidades cognitivas. A segunda delas tem suas capacidades direcionadas à criatividade. O aluno, geralmente, é mais questionador, imaginativo e inventivo na resolução de problemas.

 

O primeiro teste de QI foi desenvolvido no início do século XX pelo psicólogo francês Alfred Binet. Para calcular o QI de uma pessoa divide-se a sua idade mental pela sua idade cronológica, multiplicado o resultado por 100. Uma pessoa com QI de 85 a 115 é considerada com inteligência padrão, de 115 a 129 acima da média, de 130 a 144 superdotada e acima disso pode ser considerada gênio. Para identificar a idade mental é necessário realizar vários testes.

 

Uma das bases para a identificação de pessoas com superdotação são os três anéis de Renzulli, que correspondem a habilidade acima da média em alguma área do conhecimento (com relação aos pares da mesma idade e origem social e cultural); comprometimento com a tarefa (implica em motivação, vontade de realizar uma tarefa, perseverança e concentração) e criatividade (pensar em algo diferente, ver novos significados e implicações, retirar ideias de um contexto e usá-las em outro).

 

O método de Renzulli auxilia na identificação dos traços de superdotação. (Créditos: Barbara Carvalho e Jeniffer Oliveira)

 

 

Gênios na escola

 

O Brasil possui um grande número de crianças superdotadas, mas os dados não conseguem objetivar com grande certeza tal dado devido à dificuldade de se reconhecer essas aptidões. Segundo pesquisa divulgada em 2014 pelo Ministério da Educação (MEC), o Brasil possui pouco mais de 13 mil crianças com altas habilidades. Porém, se usarmos a base de cálculo sugerida pelo americano Joseph Renzulli, teríamos cerca de 3,15 milhões de brasileiros com altas habilidades. O número equivale a 5% da população infanto-juvenil.

 

O gráfico abaixo mostra o aumento no número de crianças com altas habilidades reconhecidas e também o número de escolas que passaram a trabalhar com essas crianças, em um salto de seis anos.

 

Número de crianças superdotadas cresce mais de dez vezes em seis anos. (Fonte: Inep/ Créditos: Barbara Carvalho e Jeniffer Oliveira)

 

Dentro da Secretaria de Estado da Educação do Paraná (SEED-PR) existe o Departamento de Educação Especial, onde são atendidos os estudantes com múltiplas deficiências, transtorno global do desenvolvimento e com altas habilidades/superdotação. Esses estudantes recebem orientações pedagógicas de acordo com as orientações e diretrizes legais da política do MEC.

 

Hoje 2.782 estudantes são identificados com superdotação no Paraná, mas apenas 1.003 estão em atendimento. Isso significa que menos da metade dos alunos estão matriculados em alguma sala de recurso da rede estadual do Paraná. Lembra-se que esse número exclui os estudantes das redes municipais do estado. Tais alunos foram identificados passando por alguma avaliação, seja ela formal com uma psicóloga ou psicopedagoga, ou uma avaliação no contexto escolar.

 

Segundo a chefe do Departamento de Educação Especial, Siana do Carmo de Oliveira Franco Bueno, os profissionais da educação especial no Estado, ao longo de quatro anos, recebem orientação e participam de cursos que instruem a identificação de um aluno com altas habilidades na sala de aula. Inicialmente, os professores levam essa identificação para a equipe pedagógica, que, por sua vez, conversa com a direção.

 

Os professores das disciplinas passam a observar os estudantes e elaboram relatórios sobre o desenvolvimento deles. O próximo passo na escola é entrar em contato com o núcleo regional de educação de sua cidade, que possui as equipes de educação especial que podem validar essa identificação.

 

 

 

Os dois lados da moeda

 

Quando se fala de altas habilidades a tendência é imaginar um individuo autodidata, bem resolvido e que não apresenta dificuldades no seu aprendizado nem em seu cotidiano. No entanto, quem conhece essa realidade de perto sabe que a situação é mais complexa e que o superdotado enfrenta vários problemas.

 

A empresária Josele Seixas Terra conta que seu filho começou a ter problemas escolares, o que a levou a procurar ajuda especializada. Ela relata que “ele terminava a tarefa mais rápido que os outros alunos e ia ajudar aqueles que tinham dúvidas a elucidar as tarefas. Tal postura não era aceita na escola onde estava e a professora o colocava para fora da sala”.

 

Segundo Siana Bueno, quando um superdotado é identificado, geralmente, já vem com um histórico de várias reprovações na escola. Alguns relatam que foram encaminhados para classes especiais – onde só eram matriculados alunos com deficiência intelectual. Outros contam que desistiram da escola por alguns anos e recuperam em pouco tempo no Centro Estadual de Educação Básica para Jovens e Adultos (CEEBJA).

 

Algumas escolas resistem à identificação do superdotado porque ele não faz aquilo que acham que ele deveria fazer, como participar assiduamente das aulas, entregar todos os trabalhos, etc. De acordo com Siana, há várias pesquisas e relatos de profissionais em que jovens acabaram abandonando os estudos e entrando no mundo das drogas, porque a escola não foi capaz de identificá-los como superdotados. Josele ainda lembra que devido à condição do filho, ela e a família passaram por muito preconceito. “O diferente assusta as pessoas, somos uma sociedade cheia de padrões e aqueles que não se assemelham ou se igualam são excluídos", declara.

 

 

Por que é difícil identificar a superdotação?

 

Antes de serem identificados como superdotados, principalmente os produtivos criativos, são confundidos com estudantes​ preguiçosos, com transtornos e sem interesse. De fato, se eles têm uma expectativa a mais na escola não sentem interesse por aquilo que vivenciam no dia a dia escolar.

 

Há dez anos não se falava do assunto. Segundo Siana Bueno, “hoje já é possível ver uma preocupação nas faculdades e universidades com relação ao tema, inserindo nos seus currículos disciplinares conteúdo que trate de inclusão.” No entanto, a maioria das instituições disponibiliza esse tipo de conteúdo por meio de cursos de EAD (Educação a Distância) com no máximo 40 horas, o que serve para dar uma noção básica, mas não é o suficiente para aprofundamento necessário.

 

São poucos os profissionais que tem experiência e segurança para falar de altas habilidades nos cursos de graduação, pois são poucas pessoas no Brasil e no mundo que pesquisam sobre o assunto. Para mudar esse cenário, é necessária uma mobilização que depende da organização da Secretaria da Educação do Ensino Superior. Apesar disso, há tentativas de mudar esse quadro, principalmente com as mobilizações dos integrantes do Conselho Brasileiro para Superdotação (ConBraSD).

 

 

Novo projetos

 

Apesar do tema ainda não ser muito pesquisado e difundido no Brasil, existem instituições e grupos que auxiliam na identificação e orientação adequada aos indivíduos e suas famílias. Um exemplo é o Instituto para Otimização da Aprendizagem (Inodap), que realiza a avaliação de potencial intelectual.

 O Inodap oferece materiais e jogos educativos para as crianças e distração também para os adultos. (Créditos: Barbara Carvalho e Jeniffer Oliveira)

 

A gerente administrativa do Inodap, Daniela Cavallini Baccarin, conta um pouco de como esse processo é construído: “acontece de maneira formal, com um profissional capacitado para fazer uma avaliação de potencial, no caso um psicólogo, para ter um olhar sobre a superdotação”.

 

O processo de análise formal começa com uma entrevista, perguntando o que se percebe de diferente, o que esta acontecendo na escola, com quantos anos começou a andar e falar, enfim, é realizado um questionário bastante extenso.  É necessária uma média de seis sessões, com uma hora cada, para poder fechar um diagnóstico. Quando se trata de criança, essa entrevista inicial é com os responsáveis por ela.

 

Daniela ainda relata que o Instituto orienta aos pais a proporcionarem atividades extracurriculares dentro das suas possibilidades. Geralmente o âmbito escolar possui algumas exigências, mas a lei assegura benefícios para a criança que é superdotada, como poder acelerar a grade curricular.

 

No sistema público de educação transformações estão sendo feitas a respeito do assunto. O primeiro Núcleo de Atividades de Altas Habilidades/Superdotação – NAAHS do Paraná foi implantado em Londrina. O NAAHS é um programa do Governo Federal no qual tanto os estados como as prefeituras têm opção de aderir ou não à política e ao serviço ofertado por ele.

 

O Departamento de Educação Especial pretende implantar esse programa em pelo menos mais cinco regiões do estado. Esse núcleo tem centros de convivência, pesquisa, formação e vários outros para fomentar a discussão acerca desse tema. Além disso, Siana Bueno conta das expectativas sobre demais projetos que estão em desenvolvimento.

 

Em um destes, a proposta é trabalhar com os pedagogos das escolas do ensino comum, pois eles que fazem a articulação entre todos os professores das disciplinas e também entre o especialista da educação especial e os professores do ensino comum. Serão investidos em cursos de EAD, cursos presenciais, cursos modelos formatados para esse projeto. Um piloto está previsto para acontecer em Curitiba em meados de julho, mas os outros 32 núcleos regionais do Paraná poderão utilizar esse mesmo processo.

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