Paraná abriga um pedaço da Ucrânia no Brasil

18.07.2017

Cultura originária do Leste Europeu tem presença forte no Estado

 

 Bandeira ucraniana na porta do quiosque do Memorial. (Crédito: Tuba do Sul)

 

É notável no Brasil a imensa mistura de povos e culturas vindas dos mais diversos países. Italianos, japoneses e alemães são alguns dos grupos étnicos que vieram há mais de um século em busca de uma vida melhor e oportunidades de trabalho, além dos portugueses que colonizaram o país.

 

No Paraná, um povo de presença marcante é o ucraniano. O Estado abriga hoje aproximadamente 80% de uma população de mais de um milhão, composta por pessoas que vieram do país do Leste Europeu e seus descendentes. Os primeiros vieram no final do século 19, poucos anos após o fim da escravatura.

 

Em Curitiba, vivem cerca de 33 mil ucranianos e descendentes. O número só é menor do que em Prudentópolis, que tem em torno de 38 mil. A imigração é lembrada em vários locais da capital, principalmente o Memorial Ucraniano e a Praça da Ucrânia.

 

 

Relatos de um jovem descendente

 

No parque Tingui está localizado o Memorial da Imigração Ucraniana. Inaugurado em 1995, o local tem como principal atração um museu que imita uma igreja. Trata-se de uma réplica da primeira igreja ucraniana construída em território brasileiro, a de São Miguel Arcanjo, no município paranaense de Mallet.

 

Ao lado da igreja, há um quiosque onde é possível comprar lanches, sorvetes e também vários elementos da cultura ucraniana, como as pêssankas e bordados típicos. É o local de trabalho do descendente de ucranianos Daniel Makahin, 20 anos.

 

 Daniel Makahin, do quiosque do Memorial Ucraniano. (Crédito: Tuba do Sul)

 

Makahin disse que, em agosto de 2016, ocorreu um grande evento no Memorial para homenagear os 25 anos da independência da Ucrânia e os 125 da imigração ucraniana no Brasil. “Costumeiramente, realizam-se apresentações folclóricas por lá. Dança, canto, às vezes apresentações com instrumentos musicais típicos da cultura ucraniana”, relata.

 

Segundo ele, a festa teve um grande prestígio, tanto por parte da comunidade quanto dos espectadores, ucranianos ou não. "Gosto muito quando é divulgado e quando acontecem esses eventos relacionados à minha própria cultura", diz.

 

Sobre a chegada de sua família ao Brasil, Makahin revela que foram enganados, assim como vários outros imigrantes, que pensavam que o país seria uma terra de oportunidades, um lugar para enriquecer facilmente, um lugar de sucesso onde não seria necessário trabalhar para obter dinheiro, tudo seria "de mão beijada".

 

Como o jovem conta, os imigrantes vieram para o Paraná e foram jogados no interior do Estado pelo governo, tendo que lutar contra índios e animais selvagens no meio do mato. "Todos os imigrantes sofreram com isso, não só os de etnia ucraniana. A chegada dos imigrantes, incluindo minha família, foi sofrida, mas conseguimos."

 

 

A riqueza da influência

 

No bairro Bigorrilho está localizada a Praça da Ucrânia. Foi erguida no local uma estátua de Tarás Chevtchenko (1814-1861), considerado o poeta maior do país europeu. Nas proximidades da praça, está a casa da diretora cultural da Sociedade Ucraniana do Brasil, Mirna Voloschen.

 

 Estátua do poeta Tarás Chevtchenko, na Praça da Ucrânia. (Crédito: Tuba do Sul)

 

Mirna fala sobre a grande contribuição ucraniana para a cultura paranaense, que vai muito além das pêssankas e danças típicas. “A cultura do trigo, tanto do normal quanto do sarraceno, foi trazida ao Paraná pelos imigrantes ucranianos. Antigamente, não se plantava trigo por aqui. Eles trouxeram em suas bagagens as sementes”, conta. “Hoje, viajando pelo Estado adentro, você vê muitas plantações de trigo. E aí lembra dos ucranianos.”

 

Ainda sobre a produção agrícola, a diretora destaca que imigrantes fundaram a primeira indústria moageira de trigo no Paraná. Como ela explica, foi a primeira cooperativa instituída no Estado, em janeiro de 1913. Após essa primeira cooperativa, foram implantadas mais 14 nas colônias, nas pequenas localidades onde residiam os ucranianos. E, a partir daí, surgiu o movimento cooperativista, que se difundiu por todo o Brasil.

 

Em março deste ano, a Sociedade Ucraniana foi palco do Segundo Dia da Ucrânia em Curitiba. Mirna conta que muitas pessoas vieram prestigiar o evento, promovido pelo Folclore Ucraniano Barvinok. “Nesses dois dias, os que compareceram puderam assistir a diversas apresentações folclóricas, como dança e canto”, destaca.

 

Na culinária, a diretora lista como atrações o varenek, pastel cozido com recheio de batata, e os holubtsi, charutos de repolho com trigo sarraceno. Já no artesanato, ela explica que há muito mais do que pêssankas: bordados, porcelanas, tapeçarias, trabalhos em madeira.

 

Como personalidades influentes na cultura, são destacados por Mirna o pintor Miguel Bakun (1909-1963) e a poetisa Helena Kolody (1912-2004). Ela também ressalta a contribuição da família Demeterco, que fundou a rede de supermercados Mercadorama, para o comércio no Estado: “Veja quantas pessoas foram empregadas, constituíram sua família e tiraram seu sustento a partir de um pequeno negócio iniciado por uma família ucraniana”.

 

Por fim, outro ponto comentado pela diretora é a influência arquitetônica. Além das construções do Memorial, a diretora também fala sobre algumas casas que podem ser vistas nos bairros da capital e nos municípios do interior: “Ainda existem casinhas que têm alguns detalhes em madeira, que chamamos de lambrequins. Foram trazidos por imigrantes ucranianos da região da Bucovina, onde é muito comum o uso desse enfeite nas casas.” 

 

 

Brasileiros famosos de origem ucraniana

 

Entres celebridades brasileiras de ascendência ucraniana, um dos destaques é o cineasta Héctor Babenco (1946-2016). Babenco nasceu na Argentina, mas se mudou para o Brasil aos 19 anos de idade e se naturalizou em 1977. Em 2010, casou-se com a atriz Bárbara Paz. Dirigiu dez filmes, entre eles Carandiru, de 2003.

 

A apresentadora Eliana nasceu em São Paulo, filha de um cearense com uma paranaense de origem ucraniana. O jogador de futebol gaúcho Rafael Sóbis, ex-Internacional e Fluminense e hoje no Cruzeiro, também tem a ascendência.

 

Já a escritora Clarice Lispector (1920-1977) nasceu na aldeia ucraniana de Chechelnyk, mas foi viver no Brasil ainda na infância. Naturalizou-se oficialmente em 1943 e se tornou um dos maiores nomes da literatura brasileira.

 

 

Ucrânia: como o país é lembrado

 

A Ucrânia é a terra de várias personalidades mundialmente conhecidas. Uma delas é o ex-jogador de futebol Andriy Shevchenko, que se destacou pelos clubes Chelsea e Milan. Pelo time italiano, venceu a Liga dos Campeões da Europa na temporada 2002-03. Disputou a Copa do Mundo em 2006, chegando às quartas de final com a seleção ucraniana, da qual é técnico desde 2016, quatro anos depois de sua aposentadoria como atleta.

 

A atriz Milla Jovovich, que atuou em De volta à Lagoa Azul e nos filmes da franquia Resident Evil, possui nacionalidade norte-americana, mas é natural de Kiev. É filha de uma atriz russa e um médico sérvio.

 

O país não é lembrado apenas por suas personalidades. Em 1986, a cidade de Chernobyl, na região de Kiev, foi palco do maior acidente nuclear da história. A radioatividade lançada pela usina local espalhou-se por boa parte do continente europeu e da então União Soviética.

Please reload

Jovens LGBT enfrentam preconceito dentro de casa

18.11.2019

Ser bilíngue significa expandir os horizontes

11.11.2019

Terror destaca cinema nacional

04.11.2019

1/3
Please reload

  • White YouTube Icon
  • White Facebook Icon

Siga a Entreverbos

Revista online produzida pelos alunos do curso de Jornalismo

Centro Universitário Internacional| UNINTER |

Rua Saldanha Marinho, 131 – Centro | Curitiba-PR |

revistaentreverbos@gmail.com

 Site projetado por Agência Experimental Grafita
Colaboração de layout por Guilherme Dias
Siga a EntreVerbos
  • fb icon 2
  • yt icon 2
Revista digital produzida pelos alunos do curso de Jornalismo