Drag Queen: uma expressão artística

Nos últimos anos, arte vem se tornando cada vez mais conhecida e conquista admiradores

Flora Wonder, draga curitibana, afirma que a arte é cara e exige muito esforço (Créditos: Gloria Azevedo/Jessica Gonçalves)

 

Há quem diga que muitas extrapolam e passam dos limites com suas perucas volumosas e maquiagens fortes. Também há quem diga que elas representam o modelo padrão de mulher da sociedade. Apesar de não se chegar a um consenso, as drag queens são ícones artísticos que tem cada vez mais chamado a atenção da sociedade e de admiradores. 

 

O termo drag queen se refere a homens que se vestem de mulheres para realizar performances artísticas, dançando e dublando músicas de suas escolhas ou, até mesmo, cantando. Porém, a arte de ser drag vai além da criação e da produção de uma personagem. Não se trata apenas de querer parecer mulher como muitos pensam e, sim, de abraçar a ideia de feminilidade e mostrar que ela pode existir de diversas formas - são personalidades e roupagens próprias, extravagantes e, até mesmo, “irrealistas”.

 

Portanto, essa expressão artística não tem relação alguma com a identidade de gênero e orientação sexual. Sophine Baudelaire, drag queen, explica que: “As pessoas confundem a arte com a identidade de gênero, mas não, não é isso. Tem mulheres trans que fazem drag”. Identidade é gênero é a forma como uma pessoa identifica-se como mulher, homem ou não-binária. Já orientação sexual tem a ver com o gênero pelo qual a pessoa sente atração sexual e pode ser heterossexual, homossexual, bissexual e outros. 

 

Como Sophine disse, não são só homens que fazem drag, muitas mulheres cis (aquelas que se identificam com o gênero biológico) e trans sentem vontade de se montar e aderiram a esta arte. Existem também os drag kings que, ao contrário das queens que se vestem de mulheres, elas se vestem de homens. 

 

 Diferente do que muitos pensam ser drag queen não significa estar montada o tempo todo. (Crédito: Gloria Azevedo)

 

Grande preconceito em relação a cultura drag vem juntamente com a rejeição do feminino. Seja por medo ou repulsa, muitas pessoas não entendem o que leva um homem a se vestir de mulher, artisticamente ou não. A drag queen Bárbra relata que quando as pessoas veem um homem se montando acham estranho ele querer abrir mão de todos os seus privilégios enquanto homem para se assumir mais feminino.

 

Por isso, acaba sendo mais fácil as pessoas aceitarem o fato de alguém ser gay do que ser drag. Alice Mithril explica que quando diz para as pessoas que é gay elas dizem que “ah, tudo bem” mas quando diz que é drag elas reagem assustadas, o que acaba fazendo com que muitas pessoas se afastem delas por ainda sentirem rejeição em relação a essa arte.  

 

A visível representatividade que as drags vem alcançando nas mídias está fazendo com que as pessoas reconheçam seu trabalho pelo caráter artístico. No início dos anos 60, as drags, tal como conhecemos atualmente, ganharam  espaço e começaram a se apresentar em clubes, transformando-se em símbolos das lutas LGBT. Nos anos 90, a arte ganha representatividade com o filme Priscilla, a Rainha do Deserto.

 

 Flora explica que se não tivesse o apoio de sua mãe tudo seria mais dolorido. (Créditos: Jessica Gonçalves)

 

Nesse mesmo período surge a RuPaul, uma drag queen que é cantora, modelo, apresentadora e atualmente é uma estrela mundial . RuPaul fez com que as drags conquistassem representatividade em um meio tradicional de comunicação com Rupaul’s Drag Race - um reality show dos Estados Unidos, que estreou em 2009, onde elas competem entre si mostrando seus diversos talentos, para ganhar a coroa e um prêmio final. 

 

Hoje, a performance ganhou mais representatividade nacional e já é comum ouvir falar de nomes como Lorelay Fox, Gloria Groove ou até mesmo Pabllo Vittar - uma das drag queens mais vistas no YouTube que vem construindo uma trajetória vanguardista. Nesse cenário, em 2017, a televisão brasileira iniciou a produção de um programa apresentado por três drags. O Drag Me As a Queen, do canal E!, tem como estrelas principais Ikaro Kadoshi,  Penelopy Jean e Rita von Hunty.

 

Até então as drags estavam restritas aos personagens humorísticos. Sophine explica que durante muito tempo a representatividade era marcada apenas, por exemplo, por Vera Verão. “Se me chamassem de Vera Verão, eu passava mal, eu não aceitava e era horrível pra mim isso. Hoje, já me chamam de Vera Verão, e penso: eu quero, eu sou”, conta

 

Segundo Bárbra essa visibilidade que elas estão recebendo agora deve passar e rápido, pelos ciclos do movimento. “Se a gente olhar a história do movimento drag, há tempos já havia muitas drags. Na cena brasileira, é possível encontrar drags com 10 ou 15 anos de carreira e drags que estão começando agora”, afirma.

 

 A transformação de Douglas para Flora. (Créditos: Gloria Azevedo)

 

A arte de se montar

 

A montação, que é a produção da personagem, envolve preparar a pele, colocar glitter nos olhos, cílios postiços, batom, peruca e o que mais for utilizado para compor o personagem, não é um processo simples, nem muito rápido, muito menos barato.

 

“Levo em média 4 horas para me montar, porque eu não tenho tanta prática, então a gente vai com calma”, conta Flora Wonder, que complementa explicando que  “É uma sensação muito boa quando eu estou me transformando. Quando fico pronta é maravilhoso porque consigo ter a liberdade na Flora. Uma liberdade que o Douglas não tem nele. A atitude que a Flora tem, eu não tenho de Douglas. Então, eu me empodero muito montada”.

 

Como comprar alguns produtos para a montação é caro, as drag trazem o poder da união nesses momentos. “Nem todas nós temos perucas, mas tem drags que tem 3, 4 perucas, daí a gente sempre empresta uma pra outra porque peruca é caro. Aqui no Brasil, é muito caro comprar uma peruca, por menos de R$ 350 ou 400,00 você não compra. Lá de fora é mais barato, só que demora. E maquiagem também. Alguns produtos são caríssimos, mas eu empresto para as outras meninas, e elas emprestam também", explica Bárbra.

 

 Flora: "É uma sensação muito boa quando eu estou me transformando. Quando fico pronta é maravilhoso". (Créditos: Gloria Azevedo)

 

A acirrada cena drag em Curitiba

 

Mesmo ganhando cada vez mais público e admiração, a cena drag ainda é acirrada - há uma série de problemas enfrentados na hora de conseguir empregos para performar. Não se trata apenas da competitividade entre elas para conseguir a chance, e, sim, da falta de oportunidade que os espaços oferecem.

 

Algumas conseguiram empregos em baladas logo no início, quando começaram a se montar, como Bárbra, que disse que com apenas dois meses se montando ela já tinha conseguido um emprego em Curitiba. Porém isso dificilmente acontece e nem sempre as oportunidades continuam aparecendo. Mesmo atraindo muito público para as festas, elas dizem que grande parte das baladas, principalmente as LGBT, que deveriam abrir as portas para as drags, acabam fechando.

 

O companheirismo é importante nessas horas. Para enfrentar esse cenário cada uma acaba contando com seu grupo de amigas drags, como a Haus of Glory - sempre que uma consegue uma oportunidade indica a outra para que também consiga. Segundo Bárbra “é muito importante estar em grupos, porque a cena drag e os empregos para drags são muito raros, então estar juntas ajuda muito.”

 

 Flora acha que ainda existe muito preconceito nas baladas LGBT de Curitiba.  (Créditos: Jessica Gonçalves)

 

Diferenças entre drag, trans e travesti

 

Ainda há quem se confunda quanto as definições dos termos drags, transsexual e travestis, mesmo que eles refiram-se a coisas de naturezas completamente distintas. Confira abaixo as diferenças:

 

Drag: também conhecida como transformistas, são personagens, geralmente relacionados a um sexo biológico, criados por artistas, nos quais estes transformam-se fazer uma performance com intuito profissional e artístico. Geralmente, as apresentações acontecem em baladas e bares LGBT, eventos para o público misto como formaturas, festas de debutante e casamento. Essa categoria é dividida em Drag Queen e Drag King. Drag Queen são homens que se vestem como mulher de forma artística e Drag King são mulheres que se vestem como homens de forma artística.

 

Transsexual: é uma pessoa não se identifica com seu sexo biológico. Por exemplo, quando uma pessoa do sexo biológico feminino não se identifica desta forma e não se sente como tal, passa então a usar hormônios e consequentemente faz a cirurgia de mudança de sexo. São pessoas que identificam-se como mulheres, mas que nasceram num corpo de homem, ou vice e versa.

 

Travesti: é quando uma pessoa se veste do sexo oposto, o que não interfere, necessariamente, em sua genitália. Não há anulação das identidades de gênero.

, é como se não tivesse apenas uma identidade, ambas as identidades, feminino e masculino, estão presente e não há o desejo de anulação de nenhuma. Com isso, não sentem a necessidade de fazer cirurgia de mudança de sexo.

 

 

Please reload

Pibid: programa educacional valoriza a formação de docentes

02.12.2019

Escola de Karatê em São Miguel do Iguaçu nasce na persistência e dedicação

25.11.2019

Jovens LGBT enfrentam preconceito dentro de casa

18.11.2019

1/3
Please reload

  • White YouTube Icon
  • White Facebook Icon

Siga a Entreverbos

Revista online produzida pelos alunos do curso de Jornalismo

Centro Universitário Internacional| UNINTER |

Rua Saldanha Marinho, 131 – Centro | Curitiba-PR |

revistaentreverbos@gmail.com

 Site projetado por Agência Experimental Grafita
Colaboração de layout por Guilherme Dias
Siga a EntreVerbos
  • fb icon 2
  • yt icon 2
Revista digital produzida pelos alunos do curso de Jornalismo