Alunos surdos enfrentam obstáculos na educação

Acessibilidade, respeito e conscientização são fundamentais para a inclusão de pessoas surdas

O Governo do Estado viabiliza Doralice (intérprete de libras) como acompanhante de Felipe nas atividades. (Créditos: Nayara Rosolen)

 

O ambiente escolar é propício para descobertas. Crianças e jovens têm diferentes modos de aprendizado, pois a formação educacional e alfabetização se dão de maneira singular para cada indivíduo, tornando esse processo único. No ensino para alunos surdos, principalmente em escolas de ensino público regular, é necessário que haja mecanismos de acessibilidade, pelos quais crianças e adolescentes, com e sem a deficiência, interajam e participem das mesmas atividades.

 

No Brasil, a comunidade dos surdos possui mais de 9,7 milhões de pessoas, de acordo com o Censo 2010. Em 2002, a Língua Brasileira de Sinais (LIBRAS) foi reconhecida como meio legal de comunicação e expressão, pela lei nº 10.436, de 24 de abril de 2002Em 2005, o Decreto nº 5.626, de 22 de dezembro de 2005, dispõe sobre a obrigatoriedade do ensino de Libras nos cursos que envolvem formação de docentes no país. Com isso, as escolas devem dispor de um intérprete de libras.

 

 

A Secretaria da Educação do Paraná, por meio do Departamento de Educação Especial, cria e gerencia políticas públicas voltadas à Educação Bilíngue para Surdos (libras e português),  a partir de documentos federais e orientações do Ministério da Educação. Os 32 Núcleos Regionais de Educação do Estado acompanham de perto o trabalho dos professores bilíngues, tradutores e intérpretes de Libras e Língua Portuguesa nas Escolas Bilíngues para Surdos, nas Salas de Recursos Multifuncionais da Surdez, nos Centros de Atendimento Educacionais e nas Escolas Estaduais.

 

Felipe Bastos, de 17 anos, estuda no Colégio Estadual La Salle. Ele está no 3º ano do ensino médio e contou sobre a sua história na rede estadual e os desafios que precisou enfrentar por causa da surdez. O estudante começou a alfabetização em uma escola para ouvintes, porém enfrentava muitas dificuldades para aprender letras e números. “Parecia que não tinha comunicação. A minha mãe começou a pedir intérprete, mas não adiantava”, diz Bastos. Então ela o transferiu para uma escola própria para surdos, onde permaneceu até a 5ª série.

 

Quando foi para a 6ª série, conseguiu que a escola concedesse uma intérprete de libras, e desde então ele está no mesmo colégio, o La Salle. No início, ele disse que sentia dificuldade de se relacionar com os colegas, mas hoje já está adaptado, e conta que nunca sentiu nenhum tipo de preconceito ou discriminação na turma. O aluno percebe ainda dificuldades em algumas estratégias didáticas, como os recursos de filmes e palestras. A intérprete não consegue traduzir tudo o que está sendo transmitido. Para Bastos, essa é uma dificuldade tanto para o aluno surdo, quanto para os cegos.

 

Na hora das provas, como o português do surdo é diferente, a intérprete o acompanha para ajudar na compreensão das perguntas. “As provas não são diferenciadas, são iguais as dos ouvintes. Se o ouvinte pode, o surdo também pode. Porque eu penso em fazer faculdade, no futuro, e lá vai ser tudo igual, não vai ter prova diferenciada”, conta Felipe, que tem o desejo de cursar Ciências da Computação.

 

 

Dados demográficos da comunidade de estudantes surdos. (Créditos: Juliane Lima e Nayara Rosolen)

 

A intérprete do Felipe, Doralice Sabino, de 36 anos, trabalha nesta área há 8 anos e também atua como intérprete na igreja que frequenta. A profissional conta que para ser intérprete na rede estadual de ensino não basta fazer um curso simples de libras, precisa também de várias proficiências comprovadas. É possível trabalhar em escolas de ouvintes e também em escolas somente de alunos surdos, já que nem todos os professores sabem a linguagem de sinais.

 

Doralice Sabino argumenta que ainda são muitas as dificuldades enfrentadas pelo aluno surdo dentro da escola. “O ensino para o surdo precisa melhorar. O aplicativo novo do governo, eu mesma não conhecia. E, às vezes, chega dezembro, e a gente não teve acesso ao material necessário”, relata Doralice. Ela também acredita que a falta de consciência da sociedade ainda dificulta a acessibilidade de materiais para os surdos. O aplicativo que a intérprete se refere é o Sinalário, uma ferramenta de apoio a profissionais e estudantes.

 

Inclusão nas IES

 

Dentro das Instituições de Ensino Superior (IES), mesmo particulares e com mais recursos, os desafios para os surdos não se tornam mais fáceis. Para a professora Leomar Marchesini, a geração dos alunos que estão cursando uma graduação hoje, encontra obstáculos maiores, pois “não foi alfabetizada mediante metodologias adequadas, que são de natureza visual”, explica ela.

 

Para driblar essa situação, Marchesini explica que o ensino precisa de mais atenção para facilitar o entendimento do estudante, com textos simples, frases pequenas e palavras comuns. "Acreditamos que as crianças surdas, que estão hoje sendo alfabetizadas por professores bilíngues, terão maior facilidade na escrita e leitura do português", aposta Leomar.

 

José de Souza Junior, de 22 anos, sempre estudou em escolas públicas sem qualquer apoio ao aluno surdo, até ingressar no curso de Jornalismo. Na graduação, Junior optou pela modalidade a distância para conciliar os estudos com o trabalho que desenvolve num portal de notícias.

 

Junto das disciplinas disponibilizadas, o estudante recebe o apoio de um tradutor intérprete de Libras nas videoaulas, e tem um tempo maior para realizar as provas. Ainda assim, o estudante acredita que a educação precisa de melhorias para que a inclusão realmente aconteça. "Investimentos em conscientização e também no fortalecimento de vínculos entre pessoas comuns e deficientes. Necessitamos de programas que nos ajudem e nos mostrem que somos iguais a qualquer pessoa", destaca José.

 

Acessibilidade

 

No último Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM), que aconteceu em novembro de 2017, a videoprova traduzida em libras para surdos e pessoas com deficiência auditiva foi uma novidade. Segundo o site do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), 1.635 alunos solicitaram o recurso. 

 

Com a repercussão da videoprova e o tema da redação, “Desafios para a formação educacional de surdos no Brasil", Junior defende a importância da discussão e da aproximação efetiva dos surdos. "A conscientização já existe, mas é necessário que as pessoas estejam prontas para nos ajudar ultrapassar as dificuldades", afirma o estudante.

 

O Governo do Paraná lançou recentemente um aplicativo de celular para alunos, professores e toda a comunidade surda, desenvolvido pela Secretaria da Educação do Estado. O Sinalário Disciplinar de Libras, utilizado pela interprete Doralice Sabino, oferece vídeos com termos e conteúdos disciplinares em libras, com objetivo de facilitar o aprendizado.

 

 

O aplicativo Sinalário tem objetivo de facilitar o aprendizado. (Créditos: Sinalário em Libras)

 

A novidade foi apresentada na sede da Secretaria de Educação do Paraná, pela primeira vez, em outubro de 2017. Mas a professora Leomar explica que "os aplicativos jamais substituirão o intérprete de Libras, uma vez que, o que os aplicativos fazem não é Libras e sim português sinalizado. A estrutura de libras é totalmente diferente da estrutura gramatical da língua portuguesa".

 

Segundo Julio Cesar Correia Carmona, tradutor intérprete de Libras e responsável pela pasta da área da surdez na da Secretária de Educação do Paraná, o interesse da população de modo geral está maior em relação à educação bilíngue para surdos. De acordo com o intérprete, muitas pessoas têm procurado o Centro de Apoio ao Surdo e aos Profissionais da Educação de Surdos, mantido pela Secretaria, para realizar cursos de Libras Básico e Intermediário, além das turmas do Centro Estadual de Língua Estrangeiras Modernas (CELEM), para o curso de Libras.

 

Os termos corretos

 

Muitas pessoas sem o conhecimento ou até mesmo por achar que possa soar pejorativo e discriminatório, não utilizam o termo "surdo", e acabam optando por utilizar "deficiente auditivo". A verdade é que esses dois termos não são sinônimos e devem ser empregados de forma correta.

 

"Uma pessoa com surdez é aquela que tem perda profunda de audição desde o nascimento ou infância, e é usuária da língua de sinais, no Brasil, a libras. A pessoa com deficiência auditiva é aquela que tem uma perda de audição, mas não é usuária de libras. Muitas vezes conseguem ouvir mediante o uso de aparelhos auditivos", esclarece Marchesini.

 

Em 2006, na Convenção Internacional para Proteção e Promoção dos Direitos e Dignidades das Pessoas com Deficiência, foi aprovado o texto onde diz que o termo correto é "pessoa com deficiência" e não "deficiente", ou "portador de deficiência", uma vez que as pessoas não portam e sim têm uma deficiência.  

 

Principais diferenciações entre Educação Especial e Inclusiva. (Créditos: Juliane Lima e Nayara Rosolen)

 

 

Edição: Larissa Oliveira

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