Marcas deixadas pela violência

Para além da violência física, mulheres que vivem relacionamentos abusivos sofrem de outras formas

 Violência contra a mulher pode ser psicológica, moral, sexual, patrimonial, física ou verbal. (Crédito: Pixabay)

 

No começo, tudo era uma grande lua de mel. Só dois anos depois do início da relação é que começaram as desavenças e Márcia (nome fictício), aos poucos, foi descobrindo outros comportamentos de seu companheiro. Tudo era motivo de briga; algo simples, como um arroz queimado no almoço, se tornava uma discussão, iniciada por ele. Seu companheiro não reconhecia seus erros e não procurava mudar suas atitudes. As promessas feitas eram apenas da boca para fora.

 

No início das agressões (moral e psicológica), Márcia achava que ela fazia algo de errado, que ela era a culpada, mas com a ajuda de terapia com psicólogos foi capaz de compreender a situação e ver que ela não era a causadora dos conflitos: o problema era o agressor. Márcia percebia a mudança no comportamento do marido em confraternizações com a família ou amigos, principalmente quando envolvia bebida, porém, “mesmo que ele não estivesse bêbado, ele mudava", conta.

 

O filho também sofreu na relação com o padrasto. "Ele já chegou a cortar a fiação do quarto do meu filho”, explica Márcia ao lembrar que isso aconteceu após uma discussão sobre a televisão do quarto ficar ligada, durante a noite, após a criança dormir. Em outras ocasiões, ele se mostrava preconceituoso e racista para provocá-la.

 

Tudo era um gatilho para brigas, e as discussões levavam horas, dias e, às vezes, semanas. Ela relata que o agressor trazia consigo uma bagagem de atitudes machistas. A relação chegou a um ponto em que Márcia saiu de casa e procurou apoio no Conselho Tutelar e no Centro de Referência Especializado de Assistência Social (CREAS), que a encaminhou para um abrigo, no qual ficou por quatro meses. Mesmo que o tempo passe, Márcia conta que os danos emocionais causados parecem ser irreparáveis. Hoje, ela toma remédios, faz sessões de terapia e vive com uma constante sensação de cansaço, stress e ansiedade.

 

Márcia entrou com processo contra o agressor e, hoje, lida com sete ações jurídicas em andamento, em função das divergências. “Justiça lenta, preconceitos na família, na igreja, no trabalho, por todos os lados. Somos uma sociedade muito machista”, diz ela sobre outras adversidades enfrentadas, para além das agressões do ex. 

 

A psicóloga, Francielly Grigoli, explica que a mulher agredida pode sofrer com diversos danos, seja por meio da violência psicológica, moral, sexual, patrimonial, física ou verbal. Ela explica que esse trauma não acontece de uma hora para outra, mas, sim, de forma gradativa, até se tornar algo pior, o que chama atenção para a necessidade de acompanhamento profissional. 

 

“Ela consegue identificar a violência com a ajuda de psicólogos específicos nessa área de agressão”, comenta a psicóloga. O tratamento psicológico pode não ter efeitos imediatos, pois depende de como cada paciente vai reagir e do profissional escolhido. Ouça aqui Francielly Grigoli explicando acerca da complexidade do tratamento, os processos de elaboração psíquica e a problemática da culpabilização da vítima. 

 

A denúncia da agressão

 

Como forma de proteção, as denúncias são feitas anonimamente, na Delegacia da Mulher. Dependendo do tipo de agressão, a própria vítima deve entrar em contato com a delegacia para registrar a queixa. As Delegacias estão em todo o território brasileiro, com atendimento 24 horas por dia, e, também, pelo Disque 180. "Precisamos da presença dela na delegacia e da manifestação de interesse em dar prosseguimento na ação”, destaca a delegada Valesca Souza Martins sobre a importância da denúncia.

 

Vítimas tem algumas opções de aparelhos públicos que registram, acolhem e encaminham as denúncias em Curitiba. (Créditos: Luana Joly e Maicon Sutil)

 

A mulher que sofreu agressão, ao chegar à Delegacia, passa por uma triagem com psicóloga, afim de entender como ocorreu e se a vítima deseja prosseguir com a denúncia contra o agressor ou não - o que ocorre na maioria das vezes. Após a denúncia, o agressor é intimado a comparecer na delegacia e testemunhar. Os casos de prisões em flagrante são executados pela Polícia Militar (PM) e pela Guarda Municipal (GM).

 

Além da delegacia, há também a Casa da Mulher Brasileira (CMB), que realiza atividades na capital paranaense há quase dois anos, e possui mais duas outras sedes: em Campo Grande (MS) e em Brasília (DF). “É um espaço onde atendemos mulheres em situações de violência e onde toda a Lei Maria da Penha tem total portabilidade aqui”, diz Denise Renata de Godys, psicóloga da CMB.

 

Assim como na Delegacia da Mulher, a CMB recebe denúncias anônimas que podem ser feitas por telefone. O local é  público e integrado com diversos pontos de acolhimento e atendimento à mulher, como a Defensoria Pública, o Departamento de Psicologia, a Assistência Social, o Juizado de Violência Domiciliar e Familiar e o Ministério Público, além de abrigas a Patrulha Maria da Penha.

 

Conforme apuração da equipe da EntreVerbos, aproximadamente 18 mil mulheres procuraram atendimento na CMB durante esses dois anos de atuação. A CMB, enquanto aparelho público, participa do gerenciamento das medidas protetivas. “A medida varia de caso para caso, pode ser por quilômetros ou até mesmo afastamento total da mulher vitima de agressão”, explica a assistente social Bianca Ardjomand.

 

Combate à violência

 

Cada vez é mais comum as marcas e instituições lançarem campanhas contra a agressão à mulher. O Instituto Avon, por exemplo, lançou uma campanha publicitária, juntamente da Organização das Nações Unidas (ONU), com foco na problemática do silêncio e do medo que impedem e/ou dificultam a denúncia. A campanha é composta por uma websérie, com episódios que tratam da diversidade de violências as quais as mulheres estão sujeitas.

 

Nessa esteira, a cultura brasileira está sendo palco de iniciativas que privilegiam o empoderamento feminino e o respeito às mulheres. Assim como existem programas e projetos a favor do empoderamento da mulher há também cantoras que influenciam nessa caminhada pelo respeito às mulheres. Exemplos disso são a Kell Smith, que criou a música Respeita as minas, e Joelma (ex-Calypso), em parceria com Marília Mendonça, com a música Perdeu a Razão, que  fala sobre a agressão física contra as mulheres.

 

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