Projeto social aposta no judô para formação cidadã

A escola Otto vem revolucionando no desenvolvimento dos/das alunos/as, por meio do esporte olímpico

 

As aulas de judô são práticas de iniciação desportiva presentes na formação dos/as alunos/as da Educação integral. (Crédito: Evandro Tosin) 

 

O exercício da cidadania é um dos objetivos do projeto Otto Judô, que vem oferendo a prática do esporte olímpico para crianças, na Escola Municipal Otto Bracarense Costa, em Curitiba. A ação, que aposta na formação de valores, desde 2013, tem revelado excelentes judocas com bastante potencial. O idealizador e instrutor das aulas é Saimon Magalhães, professor de Educação Física.

 

Em 2017, o projeto social atendeu 330 crianças, de 8 a 13 anos. A iniciativa atende todos/as os/as alunos/as da Educação integral. Também são atendidos estudantes do ensino regular, que participam do contraturno escolar, abrangendo desde a Educação infantil, até à primeira metade do Ensino fundamental.

 

 “As crianças passavam o dia todo estudando e tinham problemas de disciplina. Quando cheguei na escola, vi que muitas das crianças eram extremamente agressivas. Tinha muita briga entre eles”, explicou Magalhães. Diante da situação, por ser praticante de judô, percebeu a possibilidade de iniciar o projeto. 

 

 

Estudantes atendidos no Otto Judô entre os anos de 2013 e 2017. (Crédito: Evandro Tosin) 

 

A ideia foi apresentada à Direção e foi aprovada. “Eles gostaram da ideia”, conta o professor. A partir disso, o Otto Judô foi iniciado, em 2013, com apenas 13 alunos, e ganhou o slogan: preparando para vencer. Hoje, o projeto atende crianças da Cidade Industrial de Curitiba (CIC), de outros bairros e da Região Metropolitana de Curitiba. “Nós temos crianças, que chegam a pegar até três ônibus para vir à escola, para poder continuar no judô”, ressaltou o professor. 

 

Luana Costa Queiroz, 10 anos, participa da atividade há cinco anos, e contou que o Otto Judô a ajuda ser uma boa aluna e ter novos amigos. A motivação da pequena judoca é movida por um sonho: “Eu quero ser uma campeã olímpica, igual à Rafaela Silva”, afirmou a menina.  Já Beatriz Peixoto, de 8 anos, mantém a frequência nas aulas. “Eu nunca falto”, disse. Ela contou o que aprende no projeto aqui.

 

A ex-aluna Sofia Velasquez, 12 anos, já passou pelo Otto Judô e também pela escola. Hoje, estuda em um colégio estadual. Ela relatou que, praticando artes marciais, aprendeu valores como respeito, honra, união e melhorou o seu rendimento nos estudos. Em 2017, ela foi destaque no sub-13, vice-campeã no Sul-Brasileiro, campeã da seletiva paranaense e 7º lugar no brasileiro. Em 2018, Sofia continua praticando e já está classificada para o Sul-Brasileiro. A menina é dedicada. “Ela é muito focada, muito disciplinada", disse o pai, Fernando Velasquez.

 

Em 2017, o projeto social atendeu 330 crianças, de 8 a 13 anos. (Crédito: Evandro Tosin) 


Caminho suave

 

O judô é a disciplina que se tornou esporte. Ele não foi criado por Jigoro Kano para ser um esporte: foi instituído com o objetivo de ser a educação física ideal para todos praticarem. Seu significado é caminho suave. A Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura declarou o judô como o esporte mais aconselhado para crianças e jovens em idade escolar (de 4 a 21 anos). Para o Comitê Olímpico Internacional (COI), é o esporte que permite a construção da amizade, participação, respeito e empenho para evoluir.

 

“Na infância, a criança ainda está passando pela formação do seu caráter, todos os princípios e valores que você transmite, ela pode levar para o resto da vida”, afirmou o professor. Para Saimon uma criança que tem contato com as regras, passará a ser organizada e ter um relacionamento melhor com os colegas, familiares e na sala de aula. Confira abaixo como é  uma aula do projeto.

 

Aula de judô na Escola Otto Bracarense da Costa. (Crédito: Evandro Tosin e Kainan Wirth)

 

Saimon esclarece que para a troca de faixa do aluno/a, são consideradas a avaliação do professor/ra, dos pais e as notas referente ao rendimento escolar - que constituem um tripé do judô. “Não adianta ela ser disciplinada e uma ótima judoca dentro do tatame, mas pisar fora e ser uma criança diferente”, ressaltou Magalhães. “Ela só será boa no judô, se for um ótimo filho em casa, e um ótimo aluno em sala de aula”, explicou o professor. De acordo com ele, se esses fatores estão em sintonia, os/as alunos/as tem mais chances de se tornarem um atleta exemplar.

 

O professor explica que o momento da graduação é o mais importante para os/as alunos/as. É avaliado todo o ambiente para que a criança receba a graduação. Além das atividades do tatame, há diálogo com os pais, para ver como tem sido o comportamento deles em casa, e com os professores da escola.

 

 “Assim você motiva a criança a sempre buscar seu melhor. A gente quer que a criança seja por completo. Esse é o enfoque da educação integral. Trabalhar a criança na parte física, mental e social”, explica. “Dentro da escola nós conseguimos colocar todos os princípios e valores do judô: o respeito, a disciplina e o aprendizado mútuo”, afirmou Magalhães. Outro fator, é o desenvolvimento da relação interpessoal e intrapessoal da criança. 

 

O objetivo é seguir o enfoque da educação integral, considerando a criança de foram ampla, principalmente na troca de faixa. (Crédito: Evandro Tosin) 

 

A diretora da Escola Otto Bracarense da Costa, Karla Kuehne, ressaltou que o projeto conta com total apoio da direção da escola, dos pais, da comunidade e de outros colaboradores. “É uma atividade diferenciada, referência na Secretaria do município”, explica. A educadora diz perceber o desenvolvimento intelectual e físico dos/as que participam.

 

Alessandra Ruy, 45, representante da Secretaria Municipal do Esporte, Lazer e Juventude (SMELJ), do Núcleo Regional da CIC, explica que projetos sociais dessa natureza modificam a vida de uma criança positivamente, tanto nos aspectos de cidadania, quanto nos familiares. "É uma transformação social, uma nova perspectiva", analisou a secretária.  

 

Na contra-mão

 

A partir do momento em que professor Saimon entrou na instituição de ensino, que fica na Vila Nossa Senhora da Luz, percebeu a realidade da região, que enfrenta muitos problemas sociais. “As crianças passam desde cedo por situações de risco, e são expostas à violência e à criminalidade”, afirmou o professor. A CIC, onde fica a escola (inaugurada em 4 de julho de 2008), é o maior bairro, em extensão, de Curitiba, localiza-se nas regiões sul e oeste, e é o mais populoso da capital. A região foi planejada para receber empresas de grande porte. Com a chegada das indústrias, o bairro se desenvolveu e cresceu. Nela, já somam 83 vilas. 

 

De acordo com o Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba (IPPUC), em 1966, formou-se a primeira concentração populacional na CIC, a Vila Nossa Senhora da Luz, fruto da primeira Cohab do Paraná, que surgiu com 2,6 mil casas. Depois, o Decreto nº 30/1973 foi assinado pelo ex-prefeito Jaime Lerner, definindo a implantação da Cidade Industrial.

 

 A escola, inaugurada no dia 4 de julho de 2008, fica na Vila Nossa Senhora da Luz, na CIC. (Crédito: Evandro Tosin)

 

Segundo os dados do IPPUC, do último Senso de 2010, a CIC conta com 172.822 habitantes. Na região, a taxa de alfabetização para crianças acima de 10 anos, é de, aproximadamente, 97% da população. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), se o bairro CIC fosse uma cidade, ele seria o 8º município com maior população do estado. A vulnerabilidade social no bairro chama atenção. Segundo a Secretaria de Segurança e Administração Penitenciária (SESP), a CIC tem o maior índice de homicídios: só em 2017 ocorreram 68 casos. Em segundo lugar está Tatuquara, com 33, e, depois, Sítio Cercado, com 23 ocorrências.

 

Esse contexto social faz parte das preocupações do projeto. “As crianças têm determinação, sempre querem se dedicar mais e aprender, porque elas vêem no judô uma chance mudança de vida”, contou Magalhães. Ao longo dos anos, o projeto já acompanhou 20 campeões estaduais e várias participações no campeonato brasileiro. Embora a função principal do projeto seja social e voltada ao processo de aprendizagem das crianças, os jovens têm se destacado na modalidade e estão conseguindo dar sequência no judô como atletas. 

Aarte marcial estimula valores como respeito, honra, união e o rendimento nos estudos. (Crédito: Evandro Tosin)

 

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