Arte oriental desmistifica estereótipos

01.10.2018

Ornamentos e riqueza de detalhes são os principais traços estéticos da exposição

No hinduísmo, a estátua de Ganesha representa sabedoria e fortuna. (Crédito: Luiza Remez)

 

O continente asiático é o tema do mais novo acervo do Museu Oscar Niemeyer (MON), trazido ao público por meio da exposição Ásia: a terra, os homens, os deuses.  Ela exibe um acervo de 3.000 peças que foram doadas pelo embaixador Fausto Godoy, as quais foram reunidas por ele durante sua carreira diplomática. Após dois anos de negociação, o MON passa a ter uma das coleções asiáticas mais significativas do Brasil e da América do Sul, a qual irá compor seu acervo permanente.

 

O doador da coleção, Fausto Godoy, conta como surgiu o interesse de reunir o acervo. “Cheguei em Nova Délhi em janeiro de 1984, e me senti impactado desde os primeiros momentos no país. Os costumes eram tão diferentes que em vez de me refugiar na facilidade da crítica a uma realidade que me escapava, decidi me jogar na cultura local. Depois de quase 16 anos e de percorrer 11 países diferentes, tomei como missão trazer a Ásia para o Brasil”.

 

No campo da arte, não é difícil encontrar exemplos de esteriótipos e pré-conceitos difundidos no senso comum. A arte asiática não escapa deste julgamento, muitas vezes, sendo classificada como algo sem distinção entre os diferentes países que fazem parte de um continente tão grande.

 

Teixeira Coelho, curador da exposição, explica que quando se entra num mundo estranho, a primeira sensação é a de caos. Esse mundo, porém, logo começa a propor sua ordem própria. Assim, para ele, o primeiro marcador dessa ordem é o gesto, seja ele evidente ou o invisível. Coelho exemplifica o conceito com obras que são encontradas na própria exposição do MON, como a escultura que possui uma mão espalmada, apontando para cima, ao lado da outra, voltada para baixo.

 

Além disso, o curador destaca os ornamentos e a riqueza de detalhes como outras características da arte asiática. “Tudo é feito de detalhe: a visão de conjunto não permite a apreensão do que está sendo mostrado, é preciso escanear o detalhe com o olhar”, comenta. Outro exemplo é que não existe separação entre o velho e o novo, pois a perspectiva oriental considera o processo entre os dois como contínuo . A ideia predominante é a da permanência, que ultrapassa os limites da originalidade.

 

Na arte oriental, cada gesto e cada detalhe é intencionalmente incorporado em uma obra. Além disso, cada objeto visível está atrelado a algo que existe na terra ou a algo que aponte para fora dela, como as divindades. As figuras divinas são extremamente respeitadas na Ásia e, muitas vezes, são o objeto central da arte desse continente.

 

O embaixador Fausto Godoy reitera o caráter plural e simbólico da exposição. “Espero que a coleção estimule a disseminação do conhecimento por meios das obras. Nós, brasileiros, estamos necessitados de um banho de universalismo, que expanda nossos horizontes, para além do Ocidente já conhecido”, explica.

 

 

Relações intercontinentais e arte

 

A arte tem sido utilizada como uma ponte possível entre culturas. Além de contribuir para a disseminação de conhecimentos, possibilita a aproximação de países em outras áreas das relações humanas. O Brasil integra os grupos econômico-políticos BRICS e G-20 que, do continente asiático, inclui países como a China, Índia, Coréia do Sul, Indonésia e Japão, embora até a Rússia possa ser englobada. Esses países têm tido maior aproximação com o Brasil por meio de várias áreas, sendo a arte um importante elo de conexão.

 

A diretora-presidente do MON, Juliana Vellozo, explica que a cultura movimenta a economia e suas iniciativas geram empregos e renda para milhões de pessoas no mundo. Juliana comenta que cultura representa civilização. "Não há desenvolvimento econômico e social que subsista, ao longo do tempo, se não for alicerçado por desenvolvimento cultural”, defende.

 

O embaixador e doador, e também curador da exposição, Fausto Godoy, explica que a Ásia vem se afirmando como o principal motor da geoeconomia. Godoy ainda comenta que “a inseminação de referências culturais estrangeiras no cotidiano do indivíduo urbano de hoje, seja no Ocidente, seja no Oriente, faz com que revisemos valores e percepções, buscando conhecê-los e compreendê-los”. Godoy explica as imigrações em massa reescrevem a cartografia humana em escala planetária. “Não somos mais ilhas. Ou melhor, as ilhas agora estão integradas no continente global. Bem-vindos todos à Pangeia reconstituída”, compara.

 

Há uma forte e crescente cooperação entre o Brasil e os países asiáticos. Um exemplo é a relação bilateral entre Brasil e China. O comércio entre os dois países movimentou mais de US$ 67 bilhões em 2016, e colaborou para que o país asiático mantivesse o posto de maior parceiro do Brasil, que, por sua vez, é o maior parceiro latino americano da China.

 

A experiência da visitação

 

A exposição ocupa a sala 5: subindo a rampa de entrada às salas expositivas você se depara com ela. Como há um número máximo de visitantes por vez, cada um recebe um cartão ao entrar no primeiro ambiente da mostra e devolve no último, ao sair. Ao entrar, a primeira sensação que se tem é de estar num templo, em algum lugar da Ásia. Na minha frente, estava uma estátua de Ganesha, a divindade mais conhecida do hinduísmo. Na sala, havia crianças, numa visita guiada. Estiquei a orelha para ouvir o que a guia contava e fiquei tão encantada quanto eles: aprendi que esta figura religiosa é considerada um removedor de obstáculos, além de conceder sucesso e fartura.

 

No primeiro ambiente, é possível encontrar vários recipientes utilizados pela antiga civilização do Vale do Indo, também chamada de harapeana, por ter sido encontrada no sítio arqueológico de Harappa, no Punjab paquistanês. Essa civilização se extinguiu de maneira abrupta, em torno de 1900 a.C. ,e sua existência se tornou conhecida com as escavações feitas pelo arqueólogo britânico Sir John Marshall, em 1920.

 

No segundo espaço são expostas diversas esculturas, dentre elas, figuras ligadas à dinastia Ming (1368 - 1644). Já o terceiro ambiente é divido em duas partes. A primeira, apresenta algumas mobílias e vestimentas típicas. Na segunda, estão expostas pinturas e poemas em folhas de papel. A caligrafia é considerada uma das formas mais antigas de arte no Japão, com origem no terceiro milênio a.C.. A principal característica da escrita é o traçado alla prima - feito em um único e interrupto gesto, sem paradas ou uso de borracha que apague os erros.

 

No quarto espaço, estão expostos objetos pessoais, domésticos e ritualísticos. Podemos ver uma máscara Mahakala de madeira (séc. XlX - XX). Original do Tibete, a máscara servia para afastar os maus espíritos e, por isso, era colocada nas paredes das portas dos templos.

 

Na sala final, o ambiente é iluminado com um lustre todo recortado, o que deixa o ambiente com uma atmosfera mágica. Segundo um guia do museu, o lustre possui as inscrições do Alcorão que podem ser identificadas quando a luminária é aberta. O acervo desta exposição se constitui como uma viagem pela Índia, China, Japão, Paquistão, Afeganistão, Vietnã, Taiwan, Iraque, Bangladesh, Cazaquistão e Myanmar. 

 

Edição: Ivone Souza

 

 

 

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