A comunicação além das fronteiras

Imigrantes tentam vida nova no Brasil, apesar das dificuldades de comunicação 

 Aula de português para estrangeiros no Colégio Arnaldo Busato com a professora Bernadete. (Crédito: Ariadne Körber)

 

O Brasil é um país que nasceu e se desenvolveu devido à imigração - nem sempre voluntária - que promoveu o uso de recursos tecnológicos e mão de obra de outras nações. Isso é uma recordação de que os imigrantes foram importantes no passado e também os são atualmente. O país tem recebido imigrantes de diversos países, num cenário bem distinto do da metade do século passado. 

 

Segundo o Ministério da Justiça, em 2014, tivemos 2.288 concessões de refúgio, um aumento de 331,11% em relação ao ano anterior, sendo sua maioria da Venezuela e Síria. Nos anos seguintes, houve uma diminuição bastante acentuada, caindo o número de concessões para 1.231 em 2015, para 886 em 2016 e para 473 em 2017.

 

Dos cerca de 700 mil imigrantes residentes hoje no Brasil, 5.134 são refugiados. Destes, 811 pediram refúgio no estado do Paraná, onde algumas universidades buscam facilitar o ingresso aos cursos daqueles que estão legalizados e que tenham domínio da língua portuguesa. Veja, a seguir, o mapa dos países que mais solicitam refúgio no Brasil:

 

Mapeamento de pedidos de refúgio no Brasil. (Crédito: Departamento de Polícia Federal)

 

Ser fluente em um idioma que não o seu, é bastante difícil, mas existem recursos como o Centro de Línguas Estrangeiras Modernas (Celem), em algumas escolas estaduais, e o Português como Língua Estrangeira (PLE) ofertado pela UFPR. Embora essas ofertas de cursos ainda sejam em pouca quantidade e não tão bem divulgadas, têm facilitado o acesso de imigrantes tanto à educação quanto ao mercado de trabalho.

 

A professora e diretora auxiliar do Colégio Arnaldo Busato, em Pinhais, Bernadete Rodrigues, ensina português em uma classe de Celem, e acredita que as aulas têm contribuído muito mais do que apenas para um conhecimento gramatical. “A gente deixa mais claro as leis, principalmente as trabalhistas, para que eles possam discutir com seus patrões sobre as realidades nas quais eles estão inseridos. Porque nós sabemos que seria muito mais fácil ludibriar quem não consegue se expressar através da linguagem”, reforça. Veja à seguir trechos da aula de Bernadete, com alunos haitianos e venezuelanos, e seu relato sobre a importância das aulas.

 

                   Trechos da aula com alunos haitianos e venezuelanos. (Crédito: Jaqueline Deina e Ariadne Körber)

 

 

Tão perto e tão longe

 

Na capital paranaense, a maior parte dos imigrantes são haitianos e refugiados sírios que, segundo dados da Prefeitura de Curitiba, começaram a chegar, em sua grande maioria, a partir de 2013. Segundo o jornal Nexo, o número de venezuelanos no Brasil também teve um excessivo aumento, e até o final de 2017 já chegava a aproximadamente 40 mil.

 

De lá pra cá, pessoas de outros países também procuraram refúgio em Curitiba, Um exemplo é Leon Alfredo Penteno Guzman, que chegou em janeiro de 2018. Junto com ele, vieram a mulher e os três filhos - Santiago 6, Valéria 11 e Leon 14 anos. A família deixou a Venezuela em busca de melhores condições de vida. O país enfrenta uma crise econômica que vem se agravando nos últimos anos, acarretando na emigração de milhares de habitantes para diversos países, entre eles, o Brasil.

 

Na cidade natal, Leon e a esposa trabalhavam na Nestlé. Mas a situação no país, cada vez pior, preocupava a família. Enfrentando até a falta de alimentos e medicamentos, eles decidiram procurar uma alternativa para oferecer um futuro melhor aos filhos. E foi através de amigos brasileiros que a esposa de Leon conseguiu uma vaga de emprego na empresa Ouro Fino. Ela enviou o currículo e de lá mesmo foi contratada. Com o contrato assinado, e a esperança de uma nova história, vieram todos para o Brasil.

 

A família mora hoje em Pinhais, região metropolitana de Curitiba. O venezuelano conta que se surpreendeu ao encontrar aqui um povo mais fechado e contido, pois a realidade do país de origem é bem diferente. Apesar disso, ele diz que muitas pessoas se movimentaram para ajudar a família a se ajustar neste período de adaptação. “Tem muita gente que nos ofereceu ajuda, vizinhos que nos surpreenderam, perguntam se precisamos de qualquer coisa, e se mostram dispostos”, destaca.

 

 Leon e a filha Valéria, na classe de Celem do colégio Arnaldo Busato. (Crédito: Ariadne Körber)

 

Tão logo, Leon e a esposa trataram de matricular os filhos para estudarem, e foi através disso que conheceram o curso de Português para Falantes de Outras Línguas (Pfol) , ofertado pelo CELEM na escola em que Valéria estuda. Com aulas duas vezes por semana, a família se reveza para assistir as aulas, pois o filho menor não participa, e precisa de cuidados enquanto os maiores acompanham, sempre com um dos pais.

 

As aulas, que são voltadas para conversação, têm sido de grande ajuda para Leon e a família, e ele também fala com entusiasmo sobre a curiosidade das pessoas. Para ele, os dois idiomas têm suas semelhanças, então muitas coisas são mais fáceis de aprender. Ouça aqui o que Leon fala  sobre as diferenças linguísticas.

 

 

Comunicação: ferramenta para inclusão de estrangeiros

 

Quadro com lições explicando as diferenças fonéticas (Crédito: Ariadne Körber)

 

A linguagem é o sistema utilizado pelo homem para se comunicar, expressar opiniões e ideias e se relacionar com o outro. Apesar da linguagem verbal ser a mais comum, podemos nos comunicar de diversas outras maneiras, como por meio de sons, símbolos, sinais (pode ser a escrita) e gestos, que é o caso da LIBRAS (Língua Brasileira de Sinais).


A linguista e diretora da editora Letra e Tal, Hanelise Rauth, diz que a comunicação, de todas as formas, é de suma importância para a inclusão na sociedade. “A relações sociais se constroem através da linguagem, para poder interagir com as pessoas precisamos nos comunicar”, afirma.

 

Para ela, os estrangeiros que chegam ao Brasil são, na maioria das vezes, muito bem recebidos. Existe uma acolhida calorosa, e pessoas que se mostram dispostas a auxiliar nesse processo de aprendizado de uma nova língua. “O brasileiro ajuda a conversar. Ele tem a boa vontade de tentar entender, mesmo que as palavras não sejam as mais corretas para as situações. ”, conta.

 

Na UFPR é oferecido o curso de PLE, que tem custo, mas possui algumas vagas com isenção de taxas. Alguns colégios estaduais de Curitiba e região oferecem o Pfol através do CELEM, de forma gratuita. entretanto, ainda assim, não é o suficiente para atender à grande demanda de estrangeiros que chegam ao Brasil todos os anos.

 

Hanelise comenta que, atualmente, vivemos em uma sociedade cada vez mais exclusiva, que não se preocupa com este tipo de problema. “As políticas públicas não têm interesse em incluir minorias, nem estender o serviço público à totalidade da população. Dentro dessa lógica, atender estrangeiros que vêm para o Brasil e não têm dinheiro para poder pagar um curso, me parece ser a última das preocupações ”, critica.

 

Com o pouco investimento que ainda existe para a demanda, o CELEM tem se mostrado uma fonte de ajuda essencial no processo de aprendizagem desses imigrantes. A linguista completa reforçando a importância da valorização dos professores voluntários que, na falta de financiamento, doam seu tempo para se dedicar  a esta importante tarefa: a inclusão do estrangeiro em nossa sociedade por meio da comunicação efetiva.

 

 

O portunhol de Carmen Ortega

 

Em 11 de setembro de 1973, um golpe de Estado derrubou o presidente do Chile, Salvador Allende, estabelecendo a ditadura militar no país. Sob o comando de Augusto Pinochet, o regime totalitário durou até 1990, mas com sequelas que assolam o território até hoje. Esse foi o principal motivo para que Carmen Alejandrina Ortega Donoso decidisse deixar para trás seu lar em Santiago e vir para o Brasil, em busca de um lugar seguro e a esperança de um futuro melhor para os filhos.

 

Com três filhos pequenos, Elizabeth,10, Marcela, 8 e Nelson, 5 anos, Carmen chegou ao país em 1986. O esposo veio um ano antes, com o propósito de conseguir emprego e ajeitar as coisas para a receber a família. Cristãos protestantes, a chilena, que hoje é pastora aqui no Brasil, e o esposo, aproveitaram a oportunidade para evangelizar no novo lar, e logo se instalaram em uma igreja evangélica na cidade de São Paulo, onde permaneceram por dez anos antes de vir para o Paraná

 

Como não sabia falar nada de português, Carmen contou com a ajuda de irmãos da comunidade onde congregava e vizinhos que a auxiliavam nas compras e coisas do dia a dia. Apesar da ajuda, e do esposo que já falava um pouco nossa língua, ela relata as dificuldades de adaptação. “Tive muita ajuda das pessoas, eu não conseguia nem fazer compras. Era muito difícil para mim entender e me explicar. Fiquei praticamente dois meses dentro de casa, chorando, com saudades. Acabava não saindo pra fazer compras porquê tinha muita vergonha.”, declara.

 

Para Carmen, essa dificuldade ainda existe hoje, pois mesmo após 32 anos no Brasil, ela ainda fala o famoso portunhol (você pode ouvir um pouco aqui). Ela conta que se pudesse ter estudado quando chegou, teria feito uma grande diferença. “Eu falo muito depressa, então há pessoas que não entendem, principalmente quando fico muito nervosa. Na época que cheguei, o que me ajudava a falar era a televisão, eu assistia e repetia as palavras”, diz.

 

Hoje, todos os filhos são casados com brasileiros e falam português e espanhol fluente, e Carmen tem quatro netos nascidos aqui no Brasil. Entre família, costumam utilizar um pouco das duas línguas, pois ela sempre fez questão de incentivar a prática, tanto para o profissional, quanto para que não se esquecessem da língua materna. “Eu sempre disse que não era bom perder nosso idioma porque, hoje em dia, em qualquer lugar é necessário outra língua", afirma ela, ao reforçar a importância dos estudos.

 

Carmen fez do Brasil seu lar e, junto com seus filhos, abraçou a nova pátria. Para ela, seu lugar é aqui. Apesar da saudade, não se vê mais voltando para o Chile, ainda que com dificuldades. Mesmo nunca tendo aprendido direito o português, após mais de três décadas, ela diz que é aqui que se sente em casa. Veja algumas fotos da família Ortega, no Chile e aqui no Brasil.

 

 Fotos de Carmen no Chile e no Brasil, com a família. (Crédito: arquivo pessoal de Carmen, reproduzidas por Jaqueline Deina)

 

 

 

 

 

 

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