Por trás da felicidade do consumo

Valorização social e status seriam conferidos por objetos materiais, mas gastos com experiências tendem a deixar as pessoas mais felizes

  Felicidade é um assunto que todos conhecem. (Crédito: Maria Eduarda Biscotto)

 

É inegável que o conceito de felicidade seja, direta ou indiretamente, relacionado a consumo, dinheiro, e talvez até mesmo consumismo. O professor de filosofia e neurociência Steve Quartz, após se ver insatisfeito com as conclusões sobre a sociedade do consumo, decidiu pesquisar mais sobre este fenômeno.  “Parece que muitos psicólogos, sociólogos e críticos da cultura estavam estudando o consumismo de uma poltrona, tendo mais interessem em criticá-lo do que em compreendê-lo”, explicou.

 

O professor tem opinião similar à de Clóvis Teixeira Filho, doutorando em Ciências da Comunicação na linha de Consumo, na Universidade de São Paulo (USP), que critica a visão pejorativa e necessariamente ligada ao consumismo que se vê disseminada atualmente. Clóvis explica aqui a necessidade de termos uma visão menos pejorativa acerca do consumo.

 

As descobertas de Quartz revelaram, principalmente, que o valor simbólico que algo carrega é extremamente importante para nós humanos; quando objetos “legais” foram apresentados aos sujeitos, durante testes, ativou-se no cérebro a mesma região responsável por quando somos elogiados ou nos sentimos valorizados, ou, como coloca, “sentimos que nosso status aumentou”.

 

Quartz declara que se trata de um processo quase que inteiramente simbólico, tal como unicamente humano: a aceitação e respeito dos outros nos é mais importante do que status socioeconômico em si. Esta necessidade que temos de buscarmos aceitação e formar laços, conhecida como “Seleção Social”, é o que nos leva a demonstrarmos o valor que damos a eles por meio de atos de altruísmo, bondade, e generosidade. Para o neurocientista, compreender estes elementos evolucionários nos faz reconsiderar nossas percepções quanto aos motivos que nos levam a consumir

 

“Procurar estima através de padrões de consumo é uma invenção cultural relativamente recente, tendo vindo da Inglaterra do século XVIII. Ao longo da maior parte da existência de nossa espécie, status veio de forma não-econômica”, declarou o professor. Clóvis Teixeira comenta o caráter histórico do consumo.

 

“Qual é a sua felicidade? O que a define?”

 

“É quando a gente encontra plenitude na forma como nos relacionamos com o mundo e com as pessoas”, declarou Caroline Porto Gomes, formada em Marketing. “Vem do amadurecimento daquilo que queremos e gostamos, de saber olhar para si mais do que se olha para o mundo”, complementa.

 

Caroline adota um modelo de felicidade decidida e admitidamente não relacionada a dinheiro, o qual relaciona com a construção de relações saudáveis com outras pessoas e a participação ativa na sociedade, além da postura autorreflexiva. Ela explica que sua percepção de felicidade vem de leitura e observações, experiências próprias, além de sua própria personalidade que “foi se intensificando com os ciclos sociais aos quais ela foi pertencendo”.

 

Marie Helweg-Larsen, professora dinamarquesa de Psicologia, compartilha de um ponto de vista similar em seu artigo, publicado na The Conversation.  No texto ela declara que, a seu ver, a razão pela qual a Dinamarca está consistentemente entre os primeiros colocados na lista de países mais felizes do mundo – muitas vezes tendo sido ela própria a 1ª – é devido à construção cultural de “hygge”, que ela traduz como “intimidade intencional”, algo que descreveu como “integral para o sentimento de bem-estar das pessoas”.

 

“Hygge” seria efetivo em sua terra natal pois mesmo sendo um país que preza bastante o individualismo, ainda há espaço para cooperação e confiança - diferente no EUA, uma nação que, embora também preze bastante pela individualidade, não possui algo similar ao “hygge”. Para Teixeira, os índices de felicidade mantém uma relação com o consumo.

 

Portanto é importante manter em mente que, embora possamos estudar e compreender mais o assunto, os resultados que teremos não serão absolutos, pois cada indivíduo é um caso diferente, e o que está ligado à sua felicidade pode não estar à do outro.

 

O gráfico abaixo traz uma pesquisa feita com 97 pessoas sobre o que elas tem como definição de felicidade. Percebe-se uma grande variedade de definições de felicidade; a resposta mais indicada foi “Família e Tradições Familiares” e a com menos indicações foi "Riqueza Material".

 

Resultados da pesquisa, com faixa etária e definição de felicidade pelo entrevistados. (Crédito: Pedro Teles Reghin)

 

Um detalhe a ser notado é que a opção “Status Social” foi a única a não ter sido escolhida ao menos uma vez. Isto pode ser interpretado ou como confirmação dos estudos de Quartz, no sentido de que status não possui valor inerente para as pessoas, ou como a manifestação uma visão pejorativa similar à descrita pelo professor Clóvis, na qual indivíduos sentem que seriam vistos negativamente caso admitissem, mesmo para si mesmos, que status lhes é de grande importância.

 

Um cenário de infelicidade e suas perspectivas

 

Caroline explica que, à sua percepção, a felicidade vem se tornando cada vez mais material conforme as pessoas trocam seus valores por coisas compráveis. “Já que estamos em um mundo da comunicação, da imagem, a gente acaba comprando muito essa ideia de que eu tenho que me expor, tenho que ser sempre gananciosa e buscar coisas muito grandes, e a não realização disso me faz infeliz”, explicou.

 

Nesta mesma linha de pensamento, a psicóloga Amie Gordon explica que pesquisadores frequentemente chegam à conclusão de que “pessoas que desejam ter mais são, de fato, menos satisfeitas”. E Caroline adiciona que “nós vemos muitas situações que nos estão afastando do que realmente somos. Estão criando modelos sociais de egoísmo, de pensamentos agressivos, e, realmente, de consumo”. Também vê pouco otimista no futuro, pois percebe uma tendência de substituição do real pelo virtual. O doutorando Clóvis Teixeira também comenta perspectivas futuras sobre o assunto.

 

Dinheiro compra felicidade?

 

O consenso tende a ser de que, embora incapaz de necessariamente comprá-la, o dinheiro ainda é um importante elemento na construção de nossa felicidade, especialmente por ser responsável por nos providenciar nossas necessidades básicas. 

 

Resultados de um estudo recente publicado no site científico Nature, realizado com mais de 1 milhão de pessoas, revela como mais dinheiro não necessariamente se iguala a mais felicidade. Mais especificamente, o estudo mostra como há um ponto, tratando-se do salário anual (US$35.000,00 - ou aproximadamente R$122.500,00 - na América Latina, sendo este o menor “teto” observado), no qual a felicidade para de crescer; em outras palavras, até se atingir este ponto, a felicidade cresce, sim.

 

Especialistas afirmam gastar dinheiro com experiências proporciona mais felicidade do que a compra de bens materiais. (Crédito: Maria Eduarda Biscotto)

 

Amie Gordon baseia-se em pesquisas ao afirmar que gastar dinheiro com experiências é muito mais satisfatório do que gastar em bens materiais, até mesmo mencionando resultados que revelam que compras experienciais geram mais felicidade no geral.

 

A professora de psicologia, Sarah Gervais, explica que embora bens materiais possuam uma durabilidade (no sentido cronológico) maior do que experiência, o impacto que têm é o inverso: bens estritamente materiais geram uma felicidade instantânea, porém momentânea, enquanto experiências geram uma felicidade que cresce com o tempo. Além disso, explica que investir nos outros, independentemente do valor utilizado, é ainda mais efetivo para nos tornar mais felizes.

 

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