Skin picking: quando cutucar a pele se torna uma patologia

04.04.2017

A doença traz muito sofrimento, mas muitos pacientes não buscam tratamento por vergonha

 

 

 

A doença pode resultar ferimentos sérios e complicações. (Créditos: Ana Elize)

 

 

A dermatilomania, também chamada de skin picking, é uma doença psicológica que faz as pessoas acometidas por ela não controlar a vontade de causar ou agravar lesões da própria pele. Muitas vezes, o indivíduo usa de objetos para mexer na pele, o que pode resultar em lesões mais sérias e complicações, como infecções bacterianas.

 

A doença é pouco conhecida no Brasil e muitas das pessoas que sofrem com dermatilomania não sabem que seu problema tem nome. Além disso, o próprio tratamento da doença também é pouco conhecido.

 

 

 

Crédito: Ana Elize/Freepick

 

 

Segundo a psiquiatra Monique Lauermann , o diagnóstico skin picking foi reconhecido no ano de 2013. Essa doença afeta cerca de 5% da população geral. De acordo com a médica, a maioria dos pacientes  são do sexo feminino, cerca de 75%, sendo que o início do quadro pode ser detectado em qualquer idade, mas que tem picos na adolescência e depois metade da vida adulta.

 

A médica ainda aconselha aqueles que apresentam sintomas a procurem auxílio. “Na minha opinião o tratamento tem que ser combinado entre dermatologista, psicologo e psiquiatra pois é também um problema de pele e muitas vezes inflama. Muitas vezes diminuindo as feridinhas diminui a gana por arrancar" comenta a especialista.

 

O dia a dia daqueles que sofrem com a doença

Ainda há no Brasil muitas pessoas que sofrem com a doença e ainda não sabem. Tal situação faz com que haja poucos dados específicos sobre a dermatilomania no país.

 

 

 

                                                                                                Os ferimentos geram manchas na pele. (Créditos: Ana Elize)

 

 

Algumas pessoas, entretanto, sabem que estão com a doença e buscam superá-la. Exemplo disso é a jovem Laís Feltrin Sidou, 23 anos, que sofre com a dermatilomania desde os sete anos de idade. Laís conta que, enquanto está se escoriando, há pensamentos de repressão em sua mente. “Preciso tirar a casquinha fora. Não devia estar fazendo isso, mas não consigo parar”, conta.

 

A jovem relata que muitas pessoas não entendem o que é a doença e falam que ela se machuca porque quer, até mesmo membros de sua família. Laís comenta que quando isso ocorre, ela se sente culpada.

 

Carla Paz, de 19 anos, sofre com a doença desde os 14, porém só foi diagnosticada “oficialmente” há dois anos e meio.

A moça conta que se coça mais pela manhã, antes de iniciar suas atividades diárias, e também à noite, depois do banho. Quando ela está se esfolando pensa em alívio e paz interior.

 

A moça diz não ligar mais sobre o que as pessoas pensam quando ela se machuca: “depois de um tempo, deixamos de nos importar com o que as pessoas dizem”. E continua: “se eu sei que isso não depende da minha vontade, eu não preciso me sentir culpada”.

 

Pessoas com a doença evitam  usar blusas de manga curta por causa das feridas. (Créditos: Ana Elize)

 

A reportagem conversou ainda com outras pessoas que sofrem com a doença, mas não quiseram se identificar, como o caso de uma moça, de 26 anos, que tem a doença desde os 13, quando começou a surgir espinhas em sua pele. Quando se coça, pensa em outras coisas, como acontecimentos do dia a dia: “É como uma terapia”, afirma. 

 

Outro caso é de uma jovem de 20 anos, que afirmou que tem a dematilomania há, pelo menos, 15 anos. Ela comenta que ninguém reconhece o ato como compulsão e diz que, enquanto está se escoriando, vem em sua mente pensamentos tristes: “eu penso no quanto o que eu estou fazendo está me destruindo”.

 

 

Dermatilomania não tem cura, mas tem tratamento

A psicóloga Monique Lauermann Tassinari trabalha com pacientes “skin picking” há dois anos. Em entrevista, ela explica um pouco sobre esta doença e como ela pode afetar as pessoas:

 

Qual foi o caso mais marcante que você atendeu com a doença?

Uma paciente com 50 anos que, desde os 13 anos, fazia feridinhas e já havia passado por diferentes dermatologistas e só nesse ano, por meio de uma postagem na minha página, ficou sabendo que o seu comportamento tinha um nome. Ela passou uma vida inteira sem usar blusas de manga curta porque seus braços sempre estavam com feridas, não ia para praia nem em locais muito quentes em função disso.

 

Qual o tratamento mais eficaz para tratar a doença?

A maioria dos estudos considera a Terapia Cognitivo Comportamental como a mais eficaz,  associando a Terapia de Reversão de Hábitos e também trabalhando pensamentos e sentimentos do paciente.  A terapia pode ser combinada com medicações e avaliação psiquiátrica e dermatológica.

 

A doença tem cura?

Não temos o costume de falar em cura, pois o comportamento pode sim voltar em algum momento, mas podemos falar em tratamento e em remissão dos sintomas.  Por exemplo, a paciente do caso que contei hoje está sem nenhuma ferida e já possui novas estratégias comportamentais, caso o comportamento volte, mas não tenho nenhum dado científico que fale sobre a possibilidade de cura.

 

Há algum dado oficial no Brasil sobre a doença?

Temos poucos estudos  sobre a doença e grande parte deles não são brasileiros; da busca que eu realizei em artigos, não encontrei dados oficiais no Brasil. No entanto, tenho conhecimento de algumas pesquisas que estão ocorrendo com pacientes em alguns estados do Brasil; logo, acredito que teremos mais dados oficiais.

 

Que conselho você daria para as pessoas que tem a doença?

Que procure ajuda especializada. É uma doença que traz muito sofrimento, muitos pacientes não buscam tratamento por vergonha, no entanto, a terapia pode ajudar a identificar quais os comportamentos e criar novos hábitos. 

 

 

A tecnologia como aliada do controle

Existe um aplicativo que ajuda os portadores da doença a monitorar seus comportamentos perante ela e identificar padrões. O Skinpick app está disponível no App Store e no Google Play. O Skinpick App permite, dentre outras coisas, que o usuário monitore seus comportamentos de duas maneiras: quando ocorrer o episódio de “picking”, ele  pode registrar imediatamente no celular ou, antes de deitar, fazer um “apanhado geral” do dia.

 

Após um tempo usando o aplicativo, você vai ter recolhido dados suficientes para começar a ver padrões em seu comportamento. O aplicativo é privado, as informações ficaram apenas no seu aparelho e, se quiser mais segurança, você pode adicionar uma senha para a sua conta no app.

 

Além do aplicativo, existem no Facebook grupos de apoio para as pessoas que sofrem com a doença, como o grupo Dermatilomania, Skin Picking Brasil e o Dermatilomaníacos Anônimos – OSPA . Os grupos têm como objetivo ajudar as pessoas que sofrem com a doença.

 

 

Doenças associadas ao skin picking

Algumas doenças acabam fazendo com que a prática de skin picking surja na vida de algumas pessoas. Essas doenças são, principalmente, ligadas ao lado emocional das pessoas. Conheça algumas delas:

 

Transtorno obsessivo compulsivo (TOC): é um transtorno no qual há presença de obsessões e compulsões que provocam ansiedade. Essas obsessões aparecem na forma de mania, como lavar as mãos o tempo todo ou verificar muitas vezes se a porta esta fechada.

 

AutismoEmbora não seja uma doença, mas sim uma condição, o autismo pode acarretar no surgimento do skin picking. O autismo é uma condição de distúrbios nos seres humanos que está sendo estudado pela ciência há mais de 60 anos. Esses distúrbios são caracterizados por dificuldade na própria comunicação, interação social e imaginação, interferindo também em comportamentos repetitivos.

 

 

 

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