Idolatria ou amor: o sentimento de fã

 

Como cada um se relaciona com o famoso que admira

 

 Renata Lara mostra recordações de shows que assistiu. (Crédito: Liliane Jochelavicius)

 

Celise Dalla Costa, psicóloga clínica e mestre em Filosofia, explica que é natural no ser humano admirar E nossos primeiros exemplos são os pais. Na adolescência, a criança precisa soltar os vínculos, então, procura novos modelos. Nesse momento, ela pode adotar um artista porque se identifica com o trabalho.

 

A família da assistente social, Marli do Rocio Gomes Pierosan, 43 anos, sempre foi muito fã do cantor Roberto Carlos. Quando a mãe dela estava grávida, ouvia as músicas dele. Às vezes, precisava fazer trabalhos domésticos e Marli, ainda bebê, não ficava quieta. A mãe colocava ela deitada no berço com o radinho de pilha ao lado,  que geralmente estava tocando músicas do Rei, o que fazia a menina ficar quietinha.

 

Marli conta que seu tio também gostava muito das músicas e, quando ouvia os discos, levava ela junto, que cantava acompanhando as letras nos encartes. A assistente social tem o hábito de usar sempre azul, mas diz que não começou por causa do famoso.

 

Para a fã, Roberto Carlos é um exemplo. Ela considera o ídolo uma pessoa simples, amorosa e religiosa. As músicas do Rei são uma trilha sonora para todos os momentos da sua vida “se chorei ou se sorri, o importante é que emoções eu vivi”, cita Marli, rindo. Vê a obra do artista como uma “verdadeira declaração de amor”. A fã influenciou também o marido, que não era ligado ao Roberto Carlos. Agora não passam o final de ano sem assistir ao seu Especial. Quando foi homenageado pela Beija Flor, os dois acordaram às quatro horas para assistir.


Marli define seu sentimento pelo artista como amor e admiração. Acompanha suas notícias pela página do Facebook, e ouve as músicas pelo YouTube. Não costuma comprar as produções do artista, o que tem são os discos de vinil que o tio lhe deu.

 

 Marli do Rocio Gomes Pierosan com disco de vinil que ouvia com o tio. (Crédito: Liliane Jochelavicius)

 

De acordo com a psicóloga, tanto o amor quanto a idolatria podem definir o sentimento do fã. Essa diferença só pode ser percebida na forma como viverá essa admiração. É normal que as pessoas escolham modelos, não apenas na música, mas também escritores, atores ou, como destaca Celise,  os youtubers. O que não pode haver é o prejuízo da vida real em virtude de projeções com relação ao famoso.

 

 

Transformações na relação

 

Renata Lara, 22 anos, é formada em relações públicas e fã do Luan Santana desde 2009. O primeiro contato com a música dele foi em 2007, pelo YouTube, publicada por um amigo do cantor. Nesse tempo ele ainda era identificado como Gurizinho. Dois anos depois, em um festival no qual foi por causa da dupla Fernando e Sorocaba, viu Luan Santana. Quando ele entrou no palco, a fã começou a chorar.

 

Desde então, Renata acompanha a carreira do músico, que considera muito importante em sua vida. Conta que a música e a história de vida do Luan Santana fizeram com que tivesse mais coragem para sonhar e tentar conquistar o que deseja. Gosta das músicas, mas também admira a história do artista, que considera ser de superação.

 

Em alguns casos, o fã pode se identificar com alguma condição de vida da celebridade, por exemplo, uma doença em comum, explica Celise. Como a celebridade é bem sucedida, quem a admira acredita também poder chegar lá. Isso é uma projeção de alguém que a pessoa gostaria de ser. A psicóloga destaca que essa relação só passa a ser patológica quando o fã “deixa de viver o mundo real para viver o mundo do ideal projetado”, ou deixa de viver a própria vida para viver a vida do outro. Essa relação pode ser definida como uma idolatria.

 

Luan Santana não gostava das próprias músicas no início da carreira, conta Renata, mas os fãs sempre o incentivam e contribuem para que sua carreira continue. Já ficou três dias na fila de um show, revezando com as amigas para conseguir ficar na grade. Quando ela ganhou o primeiro camarim, em uma promoção da Central de Fãs, precisou encontrar passagem e hotel de um dia para o outro. Para isso, precisou emprestar dinheiro de várias pessoas. Já seguiu a van do famoso, junto com uma amiga, de São José dos Pinhais até Curitiba, mas se perderam e não conseguiram ver ele.

 

Galeria de fotos das fãs com suas recordações. (Crédito: Liliane Jochelavicius)

 

 

As fãs entrevistadas definem seu sentimento pelo famoso como amor. Elas colocam os famosos como modelos de admiração, não apenas pela música, mas pela história de vida. Não necessariamente por uma identificação, mas por considerarem os famosos como modelos sociais. Renata Lara conta que no início gastava todo o seu dinheiro comprando coisas relacionadas ao Luan Santana, mas agora já não faz mais isso. Celise esclarece que é comum essa mudança, que adolescentes adotem uma postura de entrega e mudam ao chegar na vida adulta.

 

Renata Lara é presidente da Família Luan Santa em Curitiba desde 2010, que é a união de todos os fã clubes de Curitiba e Região Metropolitana. Participa de um fã site que publica notícias sobre o artista. Por meio da admiração pelo artista, Renata acabou conhecendo muitos amigos por todo o Brasil. Diferente da Marli, Renata conheceu o namorado por causa do Luan Santana, até sua música tema do relacionamento é do músico. O que as duas têm em comum é que as músicas fazem a trilha sonora para todos os momentos das suas vidas.

 

Renata Lara mostra ônibus personalizado que ganhou em promoção do Twitter. (Crédito: Liliane Jochelavicius)

 

Fãs de culturas distantes

 

Há fãs também de culturas mais distantes, como é o caso da Camila de Lima Araujo, 16 anos, que gosta do K-pop. Nesse estilo musical com origem na Coréia do Sul, as características visuais e as coreografias têm destaque. As músicas cantadas em coreano têm ganhado fãs não apenas no Brasil. 

 

Camila conheceu o K-pop em 2013, assistindo vídeos no YouTube - é por esse canal que acompanha as produções até hoje. A adolescente conta que lá são lançados os MV (Music Video), ou clipes, e até algumas “lives”. Quanto aos artistas ela diz: “eu tenho os meus utt (ultimate), são os seus favoritos dentro de todos os outros grupos, que são o Min Yoongi (BTS), Kim Taehyung (BTS) e T.O.P (BIGBANG).”

 

K-pop tem estilo característico. (Crédito: Reprodução/GIPHY)

 

O grupo BTS veio ao Brasil, mas Camila não pode ir ao show. Ela conta que vários de seus amigos também gostam dessas músicas, e que já fez contato com fã que mora na Indonésia, devido ao gosto em comum. Tanto os fãs de artistas que vivem em outros países, quanto os dos que vivem mais perto, contam ter feito amigos por causa dessa admiração.

 

Assim é possível perceber não apenas uma admiração distante, mas que os artistas passam a ser uma ponte com outras pessoas. Camila tem os amigos que gostam do mesmo estilo, o que os aproxima. Renata por conta da sua admiração fez amigos em diferentes estados, e tem no artista um motivo para encontros presenciais com outros fãs. Durante a entrevista, Marli logo começou uma conversa com uma florista, que também gosta do Roberto Carlos.

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