Brasil é o maior consumidor de agrotóxicos no mundo

19.06.2018

O uso excessivo destas substâncias pode causar danos irreversíveis ao organismo

 

 País lidera ranking mundial de consumo de agrotóxicos. (Crédito: Pixabay)

 

 

Desde 2009, foram utilizadas mais de um milhão de toneladas de agrotóxicos em todo o país. O total consumido refere-se a 20% de todo o agrotóxico utilizado no mundo e coloca o Brasil em primeiro lugar no ranking, de acordo com o Atlas Geografia do Uso De Agrotóxicos no Brasil e Conexões com a União Europeia. Em média, estima-se que cada brasileiro consuma 7 litros de agrotóxicos por ano. Os dados são alarmantes, já que o excessivo uso destas substâncias pode causar danos irreversíveis a longo prazo. A série fotográfica, do argentino Pablo Piovano, The Human Cost (O custo humano, em português), retrata justamente alguns dos danos sofridos pela população de uma área rural do norte da Argentina. Os habitantes sofrem, em parte, por trabalharem diretamente com o plantio, mas também pela proximidade com as áreas de cultivo.

 

Durante a 17ª Jornada da Agroecologia, que aconteceu em Curitiba no início de junho, um seminário temático debateu o assunto. A pós-doutora em Geografia, pela Universidade Federal Fluminense (UFF), e professora do Departamento de Geografia, da Universidade de São Paulo (USP), Larissa Lombardi, foi uma das convidadas da mesa de debate.  Segundo a pesquisadora, dados do Ministérios da Saúde indicam que a principal consequência do consumo de veneno são as intoxicações agudas.

 

Em sua pesquisa de pós-doutorado, a professora compilou dados sobre o uso de agrotóxicos no Brasil, produzindo um comparativo com alguns países da Europa. A partir disso, desenvolveu o Atlas Geografia do Uso De Agrotóxicos. Neste trabalho, ela traz diversos dados, por meio de mapas e infográficos, que demonstram números alarmantes. Alguns indicam que o consumo chega a ser mais de 100 vezes maior que no velho continente.

 

Nesse contexto, a agroecologia é umas das alternativas para combater essas práticas. A prática é feita por meios que não agridem a natureza e não faz uso de veneno. “A agroecologia respeita a saúde humana, ambiental e das relações de trabalhos. É importante porque temos uma nova forma de produção de alimentos e de sociabilidade”, argumenta Bombardi. Além da Jornada de Agroecologia, existem outros movimentos que buscam enfrentar essa a realidade brasileira, como o Fórum Nacional de Combate aos Impactos dos Agrotóxicos e o projeto de lei PNaRa (Projeto Nacional de Redução de Agrotóxicos). Clique aqui e ouça Larissa Bombardi comentando as formas de combate aos agrotóxicos.

 

 

Fonte:  Atlas Geografia do Uso De Agrotóxicos no Brasil e Conexões com a UE. (Crédito: Gabriel Mafra)

 

 

 

Alimentos passam a ser apenas produtos

 

Uma das principais causas da excessivo uso de agrotóxicos é o capitalismo internacional. O Brasil é um dos maiores produtores e exportadores de produtos agrícolas do mundo. O país está em segundo lugar na exportação de soja do mundo, chegando a exportar 68,1 milhões de toneladas por ano. Leonardo Boff, doutor em Teologia, pela Universidade de Munique, esteve ministrando a palestra de abertura da Jornada. O pesquisador, que foi professor de Ética, Filosofia da religião e de Ecologia filosófica, na Universidade do Estado do Rio de Janeiro, defende que a discussão acerca da agroecologia é urgente e de repercussão mundial. "Primeiro, a humanidade tem percebido que os transgênicos são uma violência contra a natureza, e depois eles vão percebendo que vão agredindo o ser humano, também", explica.

 

Entretanto, para Lombardi, o alimento perdeu sua essência, que é a nutrição do ser humano, e tem se transformado apenas em uma moeda comercial, o que dificulta o combate aos agrotóxicos, já que o agronegócio tem grande força econômica no país. A pesquisadora ainda afirma que este conceito já é uma realidade no Brasil. "O foco não é mais a alimentação humana e a segurança alimentar, o alimento é simplesmente uma moeda de troca como outra qualquer. Com isso, o território brasileiro não está voltado para a segurança alimentar e nutricional da população, mas para um vínculo que está atrelado ao interesse do capitalismo internacional e nacional, se afastando da condição de sobrevivência humana" analisa.

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