Uso do narguilé é mais nocivo que o do cigarro

As essências adocicadas e a mangueira compartilhada disfarçam os riscos do cachimbo de água

 

 Jovens se divertem com fumaça em sessão de narguilé (Imagens: Ivone Souza/ GIF: Cláudia Freire)

 

O cigarro já foi sinônimo de glamour, de status e até de beleza. Hoje, ele é visto como vilão da história, algo que destrói o pulmão e causa diversos tipos de câncer. Muitos jovens, inclusive, acham que é coisa de gente velha, algo ultrapassado. Para socializar, com os amigos, quem tem ganhado espaço é o narguilé - tradicional cachimbo de água, de origem oriental. Mesmo com esse modismo, de acordo com o Instituto Nacional de Câncer (INCA) seu uso é mais nocivo que o do cigarro.

 

Nesse cenário, quem cresce são as tabacarias e lounges, onde as pessoas vão para fumar e socializar. Por lei, é permitido fumar nesses ambientes. Esses espaços comercializam narguilé por meio de sessões, que são caracterizadas pelo tempo de queima do carvão, que pode durar até uma hora e vinte minutos. O colorido das essências faz com que o produto pareça inofensivo, mas segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), fumar narguilé durante uma hora equivale ao consumo de 100 cigarros. A popularização também se dá pela diversidade e do sabor adocicado das essências e pela facilidade com a qual são encontradas. É possível comprá-las não só em tabacarias e distribuidoras de bebida, mas também em bancas de jornais e revistas. 

 

Os aromas e sabores adocicados, que ocultam o gosto do tabaco,  atraem jovens como Milena Carolina Siqueira, que começou a fumar há três anos. Hoje, com 19, a jovem diz que a primeira vez que experimentou não gostou, pois achou sem graça, mas depois tomou gosto e agora não vive sem. “Todo final de semana tenho que fumar, mesmo que seja só com a minha irmã. Além disso, sempre levo meu narguilé quando saio”, relata.

 

Segundo o psicólogo Daniel Bento o que atrai as pessoas para o uso do narguilé é a companhia e o momento social, por ser uma atividade realizada em grupo, na maioria das vezes. Quem usa pode até não enxergar riscos à saúde, mas “o uso do narguilé é mais nocivo que o cigarro em si. A prática pode, sim, ser um estímulo para o uso de outras drogas, mais fortes”, pondera Bento.

 

Erick Cardoso Teixeira, 28 anos, é gerente de um lounge no centro de Curitiba. Ele fuma narguilé desde os 19 anos e não acredita que ele seja mais prejudicial do que o cigarro. “Me perguntam se faz mal. Eu respondo que provavelmente faça, pois gera fumaça. Mas não tanto quanto o cigarro. E fazer mal, várias outras coisas fazem, como por exemplo, agrotóxicos”, ressalta ele.

 

Uma das características do consumo é o compartilhamento da mangueira com amigos próximos. Essa confiança faz com que os usuários esqueçam do risco que correm, mas o Ministério da Saúde (MS)  alerta que esse uso pode ocasionar doenças como herpes, tuberculose e hepatite. Uma forma de evitar essas doenças é com na piteira descartável, um item que é encaixado na ponta da mangueira, evitando assim o contato de boca em boca, entretanto, são poucos os que aderem ao uso.

 

A piteira descartável é pouco utilizada, pois é cobrada a parte. (Crédito: Cláudia Freire)

 

Igor Henrique do Nascimento Silva, 21 anos, estudante de Direito, diz que tem medo do uso compartilhado da mangueira, mas que tenta se precaver. “Só vou a locais que conheço e lugares que me indicam. Eu sempre pergunto como é feita a higienização, por que me preocupo", conta Igor Cardoso.

 

A falta do uso da piteira se dá por motivos culturais e pela forma de cobrança. “A piteira é cobrada à parte, então a galera prefere fumar sem mesmo. E como você vai usar e jogar fora, ninguém vai querer ficar comprando sempre”, ressalta Igor. Além disso, o uso coletivo faz parte do ritual de reunir os amigos para socializar e fumar.

 

 

Curitiba: capital com mais fumantes no país


Segundo dados da pesquisa realizada pela Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico, de 2016, Curitiba lidera a lista de capitais com maior número de fumantes, à frente de cidades como São Paulo e Porto Alegre. Cerca de 15% da população adulta da cidade é dependente do cigarro. Em 2015, a capital ocupava o quarto lugar na mesma pesquisa.

 

Em um ano, a pesquisa identificou o crescimento de 40 mil pessoas na população de fumantes. No estudo, a capital se destaca também por ter a maior quantidade de homens dependentes do cigarro, 17,8% da população geral, e o segundo maior número de  mulheres, sendo de 11% da população.

 

“No cigarro temos várias substâncias que levam a dependência como a nicotina, amônia dentre outros elementos. Além da dependência biológica, tem a dependência psicológica, que está envolvida pelos gatilhos que levam a pessoa a fumar. Amigos, hábitos, descarga de ansiedade, ou estresse dentre outros”, enfatiza o psicólogo Daniel Bento.

Segundo Bento, não se sai de uma dependência do dia para a noite. “Deixar de ser dependente é um processo de descondicionamento que precisa da ajuda de um profissional para que a recaída não se instale, e o processo seja constante”, explica. Para combater essa realidade, o Sistema Único de Saúde (SUS) oferece nas Unidades Básicas de Saúde e nos Hospitais tratamento gratuito para pessoas que desejem largar o vício.

 

 

Segundo com o Ministério da Saúde, este programa que realiza métodos que vão do aconselhamento até o uso de medicamentos, existe desde 2004. Informações sobre os locais de atendimento e horários disponíveis para tratamento podem ser encontradas em unidades de atenção básica e hospitais. Outra forma de obter informações sobre como parar de fumar é ligando no número 136, do Disque Saúde.

 

Quem não fuma também se prejudica 

 

O fumante passivo corre tanto risco quanto quem é fumante ativo. Segundo a OMS, este ato involuntário é a terceira maior causa de morte evitável, perdendo apenas para o tabagismo ativo e para o consumo excessivo de álcool. Um fumante passivo inala a mesma quantidade de poluentes e outros derivados do tabaco que outros fumantes. Esses estudos comprovam que os efeitos da poluição não são apenas a curto prazo, essa exposição também esta relacionada com o aumento do risco de câncer de pulmão, de infarto e várias outras doenças graves. As infecções respiratórias estão no topo das causas de morte por fumo passivo.

 

De acordo com a OMS, aproximadamente 2 bilhões de pessoas são vítimas do fumo passivo no mundo; destas, 700 milhões são crianças, que sofrem com maior incidência de bronquites, pneumonia e infecções de ouvido, entre outras doenças. No Brasil, as crianças somam 40% das vítimas do fumo passivo.

 

Quem convive com fumantes em ambientes fechados, como carro ou em casa, têm o dobro de chances de contrair doenças, comparadas aos não-fumantes que respiram somente ar puro. O ar da casa do fumante chega a conter três vezes mais nicotina e monóxido de carbono, e até cinquenta vezes mais substâncias cancerígenas, do que a fumaça inalada pelo fumante. Apenas 15% da fumaça é inalada pelo fumante, o restante é disseminado no ar. Por isso, dentre os fumantes passivos, quem sofre mais são os garçons de casas noturnas, pois o inalam constantemente. Para não ser prejudicado, uma pessoa deve ficar a pelo menos 15 metros de um fumante, num ambiente aberto.

 

Dados sobre mortes causadas pelo tabagismo. (Crédito: Cláudia Freire/Ivone Souza)​


A Lei 12.546 proíbe o ato de fumar cigarros, cachimbos, narguilés e charutos e outros produtos derivados do tabaco em locais de uso coletivo, como pontos de ônibus, restaurantes e clubes, mesmo que se trate de lugares parcialmente fechados. Estados como São Paulo, Rondônia, Rio de Janeiro, Amazonas, Roraima, Mato Grosso, Paraná e Paraíba, antes da regulamentação federal, já tinham suas próprias leis em relação ao tema. A legislação também deu fim à propaganda dos cigarros e tornou obrigatória a advertência sobre os danos causados pelo tabaco e o uso de placas e cartazes, em estabelecimentos, informando a proibição. 


As multas para quem desobedece a Lei Antifumo variam entre R$2 mil a R$1,5 milhão, dependendo do nível de infração. A lei permite o consumo dentro das residências e em áreas ao ar livre, estádios de futebol, praças, tabacarias e cultos religiosos, caso faça parte do ritual.

 

 

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