Compartilhamento de bicicletas minimiza impactos no meio ambiente

02.09.2019

A prática expande a capacidade de uso de um único produto, além de atender às necessidades de mais pessoas

 

Sistema de bicicletas compartilhadas é fruto do discurso politicamente correto sobre o consumo consciente. (Crédito: Monize Ramos) 

 

 

O consumo e os consumidores vêm se modificando por meio de novas formas e caminhos alternativos. Um dos casos mais recentes são os aplicativos de compartilhamento que apostam em um novo jeito de lucratividade, por meio da economia compartilhada. Segundo o site Akatu (consumo consciente para um futuro sustentável) o maior desafio do século XXI é a reestruturação e o aumento de serviços coletivos para a manutenção da vida humana. O site destaca ainda que por conta desse consumo desenfreado bens e consumos comuns estão ameaçados, como no caso da destruição florestal em áreas protegidas. 

 

O site desenvolveu uma pesquisa que mostra o engajamento, a consciência e o comportamento do consumidor rumo ao consumo consciente. Um dos principais resultados da pesquisa apontou que em 2018 teve um crescimento no segmento de consumidores “iniciantes”, que correspondia a 32% em 2012 e neste ano está em 38%. 

 

Nesta esteira, a empresa Box 1824, especializada em pesquisas de tendências de comportamento e consumo, lançou em agosto de 2015 uma campanha chamada “The Rise of Lowsumerism”, que consiste em incentivar o baixo consumismo. Em vez do excesso, a corrente prega um estilo de vida mais consciente, preocupado com o meio ambiente. A ideia do consumismo desenfreado está perdendo espaço no atual cenário, com uma sociedade mais crítica e consciente, que estão preocupadas com o meio ambiente. O material da Box 1824 expressa uma experiência de consumo com base em atender rapidamente às necessidades primárias do consumidor.

 

 

Pesquisa sobre a consciência das pessoas em relação ao consumo. (Crédito: Ivone Souza. Fonte: Akatu )

 

De acordo com a publicitária e doutora em Comunicação e Linguagens pela Universidade Tuiuti do Paraná, Letícia Herrmann, o consumismo desenfreado não é algo bom pois gera consequências para a humanidade acerca da sustentabilidade. Letícia explica que o Lowsumerism é um movimento social que estimula o baixo consumo, ou seja, uma forma moderada de consumir de forma a pensar no processo como um todo, desde a produção até o descarte, consumindo apenas o necessário. “Qualquer atitude que tenha reflexo na sustentabilidade é muito relevante no cenário atual, por este motivo o Lowsumerism tem ganhado força nos últimos anos. É uma exigência social, política, ecológica e cultural”, diz.

 

O consumo consciente é fundamental para que não leve o meio ambiente a um esgotamento e escassez dos recursos naturais. Assim, há uma busca de uma maior utilização dos meios alternativos de transporte em substituição do carro. Victor Ferraz é diretor da EcoBike, empresa de entregas sustentáveis, que faz entregas a domicilio por meio de bicicletas ao invés de motos que poluem o meio ambiente. Ele explica que uma moto comum utilizada para fazer entregas express polui cerca de 400% a mais que um carro. “Quando a entrega é realizada por uma bike, isso não ocorre”, aponta. 

 

A iniciativa surgiu em 2011, em Curitiba, e foi inspirada nos bike Messengers de Nova York, porém com uma proposta de inovação e padronização - coisa que não existia na época no ramo de entregas. Além do atendimento humanizado, de acordo com Victor Ferraz, a empresa foca na ideia e consciência de que a entrega não estará agredindo o meio ambiente.

 

A EcoBike está presente nas regiões Sul, Sudeste e Centro-oeste do Brasil e já recebeu prêmios pela qualidade e filosofia dos serviços prestados, foi eleita uma das três organizações mais sustentáveis do país pelo Greenbest, recebeu também o prêmio Smart Cities.

 

Ferraz comenta que a falta de ciclovia numa cidade não é determinante para a prestação de serviço, no entanto é fundamental para criar uma cultura. “Nós percebemos que as ciclovias  ajudam a criar a cultura da bike nas cidades e com isso as empresas passam a considerar mais as entregas com esses tipo de transporte”, ressalta.

 

Para Letícia já existe muitas empresas que estão se apoiando no discurso lowsumerista, mudando inclusive a maneira de conceber seus produtos e ofertar ao consumidor. “Acredito que o discurso politicamente correto seja muito bem visto pelos consumidores. No entanto, não sei a vontade da prática lowsumerista é genuína, pois não parece que queremos pagar mais por algo sustentável, biodegradável ou afim. As empresas, por sua vez, adoram tal discurso para engajar consumidores e melhorar a performance do branding. De qualquer forma, acho válido, pois aos poucos o movimento incentiva a conscientização e, gradativamente, a mudança”, argumenta.

 

George Almeida, administrador usa a bicicleta para trabalhar. Ele conta que desde que o sistema de bicicletas compartilhadas chegou em Curitiba, passou a usá-la como meio de transporte e, com isso, otimizou muito tempo e dinheiro. "Eu coloco dez reais e dá para usar durante um mês. Além disso, consigo chegar muito mais rápido aos lugares que preciso", explica. Almeida conta que percebeu uma diminuição do número de bicicletas disponíveis. Em contrapartida, percebeu um aumento nos patinetes - que saem mais caro para George.

 

George Almeida usa a bicicleta compartilhada para levar documentos mais rápido. (Crédito: Ivone Souza) 

 

Aplicativos sustentáveis 

 

A iniciativa dos aplicativos de compartilhamentos de bicicletas já funciona há alguns anos em outros países, mas chegou em Curitiba somente em 2019.  A primeira a aportar foi a Yellow, que disponibiliza bicicletas e patinetes elétricos no sistema dockless (sem estações para retirada e devolução). Um mês depois, chegou na cidade a Grin, que passou a ofertar patinetes nos mesmos moldes, porém, com estações para retirada dos equipamentos.


A Yellow chegou na cidade disponibilizando 400 bicicletas e 100 patinetes, distribuídos em um perímetro de 21 quilômetros quadrados, que inclui o centro e mais 12 bairros. Já a Grin começou com 200 patinetes, distribuídos por 70 pontos para retirada.  

 

Emmanuel Alencar Furtado usa os patinetes desde que chegaram na cidade. Ele conta que consegue se deslocar sem a necessidade de usar o carro e para distâncias que chega mais rápido do que se fosse andando. Além disso, Furtado explica que os patinetes são ágeis para curtas distâncias: "Consigo otimizar meu tempo, em torno de 60% do tempo comparado com o tempo que eu gastaria andando. Uso somente para deslocamentos no centro da cidade".

 

No entanto, Emmanuel  destaca alguns problemas de segurança e infraestrutura, pois, não são todas as ruas que estão preparadas para esse meio de transporte. "A velocidade deles é alta e, se o usuário se deparar com algum obstáculo, como um buraco ou elevação de passagem, e achar que o patinete vai passar por ali, com certeza, vai cair. As ruas que possuem espaço compartilhado para bicicletas apresentam melhores condições para o uso, mas as demais não estão preparadas", relata.

 

A Prefeitura de Curitiba já estuda a regulamentação para o uso desse meio de transporte e pretende ainda criar algumas regras iguais às existentes em São Paulo, entre elas, a velocidade e a idade mínima para o uso, e maior fiscalização e orientação para o uso. " Vejo com preocupação as regulamentações que estão sendo pensadas sobre os aplicativos. Podem acabar inviabilizando seu uso por ter restrições demais, e, até mesmo, aumentar os custos por exigir cursos específicos para seu uso. É necessário regulamentar o uso e não coibir", enfatiza. 

 

A bancária Rosemeri Magagnin Buchelt experimentou, com a família, a bicicleta compartilhada, e achou a iniciativa muito bem vinda, pois acredita que compartilhamento é o futuro. “Utilizei no Parque Barigui onde não tem muitas disponíveis, mas foi legal ter a opção, porque, em casa, não temos uma bicicleta por pessoa, e pudemos andar todos juntos,” comenta. 

 

Porém, acredita que a cidade de Curitiba não está preparada para essa nova ideia de compartilhamento, a não ser para uso esporádico ou de passeio, e não como meio de transporte diário. “Acho perigoso. Falta educação no trânsito, os motoristas não respeitam e os ciclistas, muitas vezes, querem andar como carro. Quando é conveniente, andam como pedestres”, argumenta. Ainda assim, ressalta que a iniciativa colabora para ampliar a percepção de que o carro já não é a única alternativa.

 

Letícia Hermam diz entender o serviço como algo muito positivo para o meio ambiente e lucrativo para seus idealizadores. No entanto, as pessoas não estão agindo como deveriam. “Infelizmente o brasileiro não está se comportando tão bem na preservação dos equipamentos, o que gera muito descartes e prejuízo. Outra questão é que culturalmente as coisas precisam mudar neste sentido,” comenta. Ela ressalta que muitas pessoas utilizam estes meios de locomoção como diversão e não para facilitar a mobilidade urbana ou preservar o meio ambiente. “Se pensarmos na questão "moda", a novidade vai passar e o produto cair em desuso. É importante um trabalho cultural para que seja realmente uma prática sustentável”, explica.

 

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