Eventos extremos atingem quase metade dos municípios do Paraná em três anos

Levantamento de dados da Defesa Civil mostra 359 reconhecimentos de emergência ou calamidade entre outubro de 2023 e outubro de 2026
Autor: Madson Lopes

Quase metade dos municípios paranaenses precisou recorrer a mecanismos de emergência da Defesa Civil nos últimos três anos. Levantamento realizado pela reportagem a partir de dados do Sistema Integrado de Informações sobre Desastres (S2iD), do governo federal, mostra que 197 dos 399 municípios do estado tiveram pelo menos um reconhecimento de Situação de Emergência (SE) ou Estado de Calamidade Pública (ECP) após sofrerem eventos climáticos extremos, entre outubro de 2023 e de 2026.
Ao todo, foram 359 reconhecimentos no período. A Situação de Emergência é reconhecida quando os danos provocados por um desastre comprometem parcialmente a capacidade de resposta do município. Já o Estado de Calamidade Pública corresponde ao grau mais grave, quando os impactos comprometem substancialmente o funcionamento dos serviços públicos do município, recorrendo a ajuda estadual ou federal para restabelecer os serviços essenciais.
Do total de reconhecimentos analisados, 18 foram classificados como ECP, os outros 341 ocorreram como SE. Enchentes e alagamentos não são as principais causas. Mais da metade dos reconhecimentos (198 casos, ou 55,15%), foram provocados por tempestades convectivas locais, classificação que reúne eventos como granizo, chuvas intensas, vendavais e tornados.
Os eventos hidrológicos, que incluem enxurradas, inundações e alagamentos, responderam por 98 reconhecimentos. A estiagem aparece em seguida, com 62 registros. Quando os tipos de desastre são analisados individualmente, as enxurradas lideram, com 76 ocorrências. O granizo aparece logo depois, com 75.
Para o pesquisador do Novos Arranjos de Pesquisa e Inovação (NAPI) Mudanças Climáticas Wilson Flávio Feltrim, fenómenos naturais como o El Niño e o La Ninã, que trazem variabilidade ao clima, é possível perceber ao longo dos anos os impactos das mudanças climáticas na região a partir da análise da distribuição das chuvas ao longo do ano e do aumento da temperatura. “A gente conseguiu detectar que existe sim, na maioria das cidades paranaenses a persistência do aumento da temperatura”, disse.
No caso das chuvas, segundo ele, o que antes era distribuído ao longo do ano, agora caem no período de nove meses, até menos a depender do ano. “Além de aumentar a quantidade de chuva, você começa a concentrar ela, ela costuma vir em forma de eventos extremos. Isso também acaba favorecendo a ocorrência de temporais e até mesmo de tornados”, explica Feltrim, que é geógrafo e pesquisador na Universidade Federal do Paraná.
Municípios enfrentam desastres recorrentes
Os reconhecimentos não estão distribuídos de maneira uniforme pelo Paraná. O Centro-Sul concentrou o maior número, com 87 decretos distribuídos por 27 municípios. Entre as cidades que aparecem com maior frequência estão Quedas do Iguaçu, Prudentópolis, Roncador e Espigão Alto do Iguaçu.
No Sudoeste, foram 58 decretos em 34 municípios. Apesar do número menor de ocorrências, a região apresentou o maior espalhamento territorial dos registros.
Já o Vale do Iguaçu, no Sudeste do estado, concentra uma parcela significativa dos casos mais graves. Foram 28 reconhecimentos, mas oito deles foram classificados como ECP. Isso representa quase metade das 18 calamidades reconhecidas em todo o Paraná no período.

Mitigação e adaptação
Para Feltrim, a repetição dos eventos reforça a necessidade de políticas voltadas à adaptação das cidades. Entre as medidas apontadas pelo pesquisador estão obras de drenagem, planejamento urbano, ocupação adequada do solo e proteção de áreas vulneráveis. “A adaptação é reconhecer que o problema já existe.”
Enquanto os dados do interior refletem a força dos eventos extremos no campo e nas pequenas cidades, Para Marcel Vidal, nas áreas urbanas a crise climática expõe gargalos de planejamento e de vontade política. Militante ambiental e integrante da Rede Curitiba Climática (RECC), Marcel afirma que o diagnóstico do estado e da capital exige olhar crítico. "Se for comparar com outras cidades, dá para dizer que Curitiba está em um padrão melhor, só que eu vejo que a régua pode ser muito curta”, aponta.
| “Se Curitiba realmente está pronta para enfrentar o caos climático, eu diria que não."








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