Exercícios em excesso podem causar doença

21.03.2017

A vigorexia, um transtorno dismórfico corporal, atinge em sua maioria homens de 18 a 35 anos

 

A vigorexia é um transtorno no qual as pessoas se percebem como não suficientemente fortes. (Crédito: FreePik)

 

Em meio aos livros de Direito, às provas e à preparação para o exame da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Eduardo Santos Berg vai à academia semanalmente. Ele mora em Presidente Prudente, interior de São Paulo, e há dois anos faz exercícios para cuidar do corpo. Inicialmente, o objetivo era por motivos de saúde, “eu tive colesterol alto, depois que o colesterol ficou controlado e eu fiquei porque eu gostava”.

 

A prática de atividades físicas, como os feitos por Eduardo, é recomendável, porém há pessoas que exageram na busca de um corpo em boa forma e sofrem com as consequências. A vigorexia ou síndrome de Adônis, um transtorno dismórfico muscular, é exemplo disso. A psiquiatra Gabriela Mourão Ferreira explica que esta situação pode ser caracterizada como: “uma preocupação patológica com a forma do corpo, com a composição do corpo, na qual o indivíduo se percebe como não suficientemente musculoso ou não suficientemente grande, forte e vigoroso”.

 

O exercício físico em excesso é um dos sintomas da vigorexia. (Crédito: Giphy)

 

A vigorexia foi incluída recentemente, há três anos, na categoria de transtorno dismórfico corporal. Porém, já era objeto de observação há alguns anos: “Na psiquiatria esse transtorno já vem sendo estudado há pelo menos 20 anos", conta a psiquiatra, quando os estudos eram feitos em fisiculturistas e halterofilistas. É uma doença que, em um primeiro momento, passa despercebida, pois é difícil para a vítima reconhecer e identificar os sintomas.

 

Um dos quatro principais sintomas, segundo a psiquiatra, é a realização de muitos exercícios físicos. “A pessoa gasta um tempo excessivo em atividades físicas, que são feitas com uma intensidade que pode ser danosa fisicamente”, explica Gabriela.

 

O segundo sintoma inserido na lista dos mais comuns é o uso de dietas feitas de modo restrito para apenas o ganho de massa muscular. Em terceiro lugar, a observação do corpo frequentemente, com obsessão pela perda de gordura.

 

O indivíduo com vigorexia passa a evitar outras atividades para dedicar-se exclusivamente aos exercícios, como explica a Gabriela: “a pessoa deixa de participar de atividades sociais ou mesmo de estudo, de trabalho para se empenhar exclusivamente para tarefas de ganho de massa muscular”.

 

Rafaela Celeste, personal trainer no Graciosa Country Club, fala que é muito comum pessoas buscarem a atividade física apenas pela estética. Ela complementa que há casos que chegam a se tornar transtorno dismórfico corporal: “infelizmente existem algumas pessoas que chegam sim a ter o transtorno da vigorexia, que é essa busca incansável por um padrão de beleza musculoso, forte e definido.”

 

Pesquisas mostram que esse é um transtorno no qual o público mais afetado são homens. O estudante de Presidente Prudente, que pratica os exercícios de forma saudável, afirma que há relação da percepção do corpo com as expectativas sociais: "ter um corpo bonito significa também fazer sucesso com as meninas e indiretamente significa também ter autoestima alta".

 

 A vigorexia pode ser estimulada pela mídia e profissionais não capacitados. (Crédito: Jeniffer Jesus/Artigo Vigorexa: doença ou adaptação)

 

Rafaela acredita que isto ocorre devido ao público ser jovem e não possuir nenhum problema de saúde ou transtorno que necessite a prática da atividade física pela saúde, como forma de tratamento. Assim, recorrem aos exercícios apenas pela questão estética e, às vezes,  “acabam indo para um extremo”.

 

A psiquiatra explica que, em razão dos estudos sobre a vigorexia serem muito recentes, não é possível afirmar com precisão os motivos que levam à doença. “Nos estudos iniciais de vigorexia, esse transtorno era considerado como uma forma de anorexia nos homens”, sendo entendido como um transtorno alimentar para o público masculino.

 

Dentro da área de Educação Física,  Rafaela conta que há muitos casos nos quais os próprios profissionais estimulam a vigorexia, pois incentivam a prática dos exercícios apenas para fins estéticos. “Eles já têm essa característica do transtorno e transmitem isso para os seus clientes e alunos”.

 

Para a vítima de vigorexia reconhecer que possui o problema não é uma tarefa fácil. Gabriela diz que os profissionais das áreas de Educação Física e Nutrição devem aprender a reconhecer que o aluno, ou cliente, tem a doença. “À medida que há o reconhecimento, é preciso tentar estimular a pessoa para se tratar". A médica aponta a  problematização da doença como forma de mostrar para a pessoa o quanto esse comportamento pode causar prejuízos físico, financeiro e também social.

 

Durante a formação nos cursos de Educação Física há um ano de Psicologia, no qual, dentre outros assuntos, é abordada a questão da vigorexia. Porém, a personal trainer fala que cabe ao atuante da área  saber mais sobre esse transtorno. “Eu acredito que cabe ao profissional buscar orientar o aluno sobre a saúde, o bem-estar, e não apenas a busca do estético”. Rafaela Celeti ainda aponta que o reforço de um profissional da área pode desencadear essa doença, assim como outros transtornos disfórmicos corporais, como a anorexia, associada ao emagrecimento em estado extremo.

 

Outro transtorno, parecido com a anorexia, é a bulimia. É uma doença em que a vítima come em excesso, porém tenta eliminar o que consumiu através de métodos como vomitar a força e exercícios físicos praticados de forma extrema, além do jejum.

 

 

Jovens enxergam defeitos onde não há

 

Em uma pesquisa feita para esta reportagem com 27 adolescentes, na faixa de 13 a 17 anos, a maioria relatou ter algo no corpo ou no rosto que não gostava. Algumas adolescentes se queixaram que queriam ser magras, terem o cabelo liso e serem mais altas.

 

 (Crédito: Jeniffer Jesus/FreePik)

 

 

Nas escolas, existem projetos que estão em alerta sobre essa e outras situações. A professora do curso de Educação do Centro Universitário Internacional, Luana Priscila Wunsch, explica que os programas de inclusão social, como horta comunitária, são de extrema importância para o bem-estar social, tanto em escolas públicas quanto em privadas. "Às vezes, a gente tem problemas seríssimos em escolas privadas de alunas com anorexia, por exemplo, ou com depressão". O ambiente nas escolas é importante neste momento de construção identitária dos jovens.

 

 

Famosos atuam como influenciadores do que é belo

 

Com a internet ficou cada vez mais comuns encontrar blogs de pessoas praticantes de atividades fitness. Mas, será que algumas levam esta prática ao extremo?

 

A personal trainer, Rafaela Celeti, fala que alguns de seus clientes solicitam atividades inspirados em pessoas famosas, visualizadas através de algumas plataformas online. “Tenho, por experiência, a solicitação de alguns clientes que têm padrões estéticos impostos por mídia, principalmente pelas redes sociais: instagram, facebook”, conta.

 

A profissional lamenta o fato de hoje existirem tecnologias que fazem alterações estéticas no corpo. “Nem sempre o que as pessoas veem como referência é o que é real ou que é possível. E claro, dentro de um padrão saudável a gente sabe que a coisa fica bem mais longe do que é postado nessas mídias”.

 

A atual esposa do cantor Belo, Gracyanne Barbosa, possui em seu facebook mais de cinco milhões de seguidores e em seu instagram quase atinge essa meta. Lá, ela posta dicas de alimentação e alguns vídeos que mostram parte do seu treino.

 

 Página oficial de Gracyanne Barbosa no facebook. (Crédito: Jeniffer Jesus)

 

Outra famosa muito conhecida pela dedicação na malhação do corpo é a Juju Salimeni, que até participou de competições de fisiculturismo. Em suas redes sociais, o número de seguidores varia de sete a dez milhões.

 

A personal trainer Rafaela Celeste fala que não é possível afirmar que elas sofram de vigorexia, pois esta pode ser somente identificada através de avaliação psiquiátrica. Porém, ela cita duas características que poderiam ser associadas à doença: o treino excessivo e a massa muscular “bem acima do padrão feminino".

 

Já a psiquiatra conta que nem todos os casos de atividades físicas em excesso podem ser caracterizadas como vigorexia, pois há casos em que os exercícios são motivados por outros objetivos. " Muitos atletas fazem uma quantidade, um volume de atividades físicas muito grande, com o intuito de chegar a um objetivo esportivo ou competitivo”, finaliza.

 

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