Depois do expediente, freelas ajudam profissionais a fechar as contas

Em Governador Valadares, trabalhadores com carteira assinada dividem a rotina entre o emprego formal e projetos extras à noite
Autor: Juan Carlos

Às 18h, quando termina o expediente na agência onde trabalha, o designer Isaque Vale liga o notebook em casa e começa a segunda parte do dia. Até as 22h, ele desenvolve peças e projetos para clientes que conquistou de forma independente. A rotina se repete várias vezes por semana.
A experiência de Isaque não é isolada. Em cidades do interior como Governador Valadares, cresce o número de profissionais que somam um emprego formal a freelas fora do horário de trabalho. A motivação, na maioria dos casos, é financeira: complementar um salário que não cobre todas as despesas
Uma rotina dividida em dois turnos
Isaque afirma que o salário do emprego formal cobre o básico, mas não sobra margem para outros planos. "O que eu ganho no emprego dá conta das contas fixas. O freela é o que sobra no fim do mês", diz.
Segundo ele, manter os dois turnos exige organização rígida de horários e abrir mão de parte do tempo livre. Ainda assim, considera a renda extra necessária para equilibrar o orçamento mensal.
O economista Raphael Santos avalia que esse tipo de trabalho extra funciona hoje como uma das principais alternativas de renda para quem sente o salário formal insuficiente. "Esse tipo de trabalho, muitas vezes, é a alternativa de renda extra que a pessoa encontra. E esses ganhos vêm compondo a economia de consumo como um todo", afirma.
Para o economista, esse movimento reflete uma defasagem salarial persistente em diversos setores, o que leva trabalhadores a buscar uma segunda fonte de renda mesmo já tendo vínculo formal estabelecido.

Nem todo mundo consegue manter o ritmo
Contraponto à experiência de Isaque é a do editor de vídeos Henrique Miranda, que testou a dupla jornada, mas reduziu bastante o ritmo depois de sentir o custo pessoal da rotina. "O salário a mais não compensou o estresse nem a falta de tempo com a família", afirma.
Henrique ainda aceita alguns trabalhos como freelancer, mas hoje numa frequência bem menor do que quando começou. Segundo ele, encontrar um equilíbrio entre a renda extra e a qualidade de vida foi o que motivou a mudança.
Apesar dos relatos distintos, as experiências de Isaque e Henrique indicam um ponto em comum: a renda de um único vínculo formal, em muitos casos, não é percebida como suficiente pelos próprios trabalhadores, ainda que o custo de complementá-la varie de pessoa para pessoa.
Para Raphael, a tendência deve se manter enquanto a defasagem salarial persistir, especialmente em cidades fora dos grandes polos econômicos, onde as oportunidades de emprego bem remunerado costumam ser mais escassas. Levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística mostra crescimento da informalidade e do trabalho autônomo no país nos últimos anos, cenário retratado com mais detalhes na editoria Comportamento da Entreverbos, e também aprofundado pela reportagem da revista Exame sobre conciliar CLT e freelas.
Confira a seguir um infográfico com a rotina dividida entre os dois turnos de trabalho.








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