• Milena Souza

Mulheres são as mais afetadas emocionalmente pela pandemia

Casos de depressão, ansiedade e estresse aumentaram com o isolamento social



OMS aponta que acumulo das tarefas caseiras pode afetar saúde feminina. Imagem: Pexels


Com a chegada da pandemia, a rotina de boa parte da população foi afetada e trouxe muitas mudanças nas áreas físicas e emocionais. Neste contexto, as mulheres vêm sendo as mais afetadas segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). Alguns dos motivos que contribuíram para essas condições são a dupla jornada, o acúmulo de tarefas que as mulheres cumprem, além do medo e da exposição com o vírus.


Julia Siqueira (20) foi uma de tantas mulheres a serem afetadas emocionalmente pela pandemia. Ela conta como a sua saúde mental se agravou com a chegada do coronavírus. Diagnosticada com depressão desde 2017, com o isolamento social, os sintomas só se agravaram e muitos planos precisaram ser desfeitos. “Lidar com os próprios sentimentos não foi fácil, e isso ocasionou várias crises de ansiedade por horas.“ afirma.


Siqueira ressalta que conciliar estudos, trabalho, rotina da casa, dar atenção para família, tudo isso tem sobrecarregado o seu emocional, ainda mais em tempos de isolamento, em que todas as coisas são feitas em casa. “Isso faz com que não nos desliguemos, já que tudo é feito no mesmo ambiente.”


Os sentimentos de medo e preocupação em como tudo iria ficar eram recorrentes fazendo com que os sintomas da depressão e ansiedade se agravassem. A universitária relata que as suas crises de ansiedade e depressão dificultaram a realização das tarefas diárias, por não conseguir se organizar e, devido ao acúmulo de atividades, teve que trancar uma de suas faculdades por não conseguir dar conta. Além disso, ela conta que também sentia os impactos na sua produtividade, no relacionamento e nas relações. Um dos seus desafios foi se adequar a todo esse modo de vida, o que angustiou e lhe causou muitas preocupações. “As incertezas, as questões financeiras, a preocupação com o meu relacionamento, com os meus pais, em como tudo vai ficar tem me deixado aflita e mais estressada nessa pandemia”, conta.


Recém casada, diz que apesar das dificuldades e por passar maior parte do tempo em casa, ela aproveitou para conhecer mais a si mesma e o seu esposo. “O que aprendi nessa pandemia foi olhar para mim mesma. Precisei me readaptar e conviver comigo. Estar no meio das pessoas fazia com que eu não tivesse tempo para cuidar de mim.”


Pandemia e a saúde mental das mulheres


Gabriela Gomes (17) também foi uma de muitas que sentiram o impacto da pandemia em sua rotina e na saúde mental. Com a chegada da pandemia, vieram as incertezas, medos e preocupações, visto que tudo era muito novo. A estudante conta que uma de suas maiores preocupações foi justamente com o seu futuro, seus estudos e as questões de trabalho, já que com a pandemia os índices de desemprego aumentaram. Ela passou a tomar remédios devido a crises de ansiedade. “Demorei um tempo para me acostumar com a nova rotina. A ansiedade fez com que eu não dormisse nem me alimentasse direito, tudo isso mexeu muito com as minhas emoções”, relata.


Além da sobrecarga em conciliar estudo, trabalho e tarefas de casa, ela sentiu uma maior dificuldade no aprendizado. “Em casa é realmente mais difícil de aprender e o que tem me ajudado para aliviar ansiedade é manter a mente ocupada”, explica. Fazer aquilo que gosta foi uma forma de se distrair. Hoje ela sabe lidar melhor com o momento. "O segredo é sempre estar fazendo algo que gosta para se distrair e não focar nas coisas ruins".


A dor da perda


''Em outubro de 2020 meu esposo foi contaminado pela Covid-19 e não resistiu. A doença fez mais uma vitima entre milhares de vidas já perdidas. A dor e o vazio que sinto até hoje são inegáveis”. Esse é o relato de uma entre várias pessoas que perderam alguém por conta da Covid-19. Roseli Garcia (50) conta o quanto foi difícil lidar com a pandemia e com esse momento de tristeza. Seu esposo, Gessé Berto, foi internado para realizar alguns exames, mas acabou contraindo o vírus no hospital nos últimos dias de internamento. Logo no começo da pandemia, Roseli também contraiu o vírus e ficou bem debilitada física e emocionalmente. “Não poder ficar perto das pessoas, da minha família, me desestabilizou. Eu fiquei tão mal que cheguei a gravar um vídeo me despedindo”.


Já fazendo tratamento para síndrome do pânico e depressão, com o diagnóstico do vírus, as preocupações e o medo só aumentaram. O sentimento de rejeição foi algo que mexeu muito com as emoções de Roseli. “Mesmo após meses que fui contaminada, as pessoas ainda sentiam medo de chegar perto de mim, e ser rejeitada e não poder nem trabalhar, doeu demais”, relata.


Após um ano de pandemia, ainda sem entender como será o futuro e muito preocupada com toda a situação, ela carrega o medo, a insegurança e a dor da perda. Após todo esse ano difícil que viveram, ela ainda se sente emocionalmente abalada e procura viver um dia de cada vez. “Passei a ver as coisas com outros olhos. Hoje dou mais valor as coisas simples e em cada detalhe e sinto felicidade em estar viva diante desse momento tão difícil e triste que estamos vivendo”.


Na imagem Roseli está no hospital com o seu esposo. Créditos: Roseli Garcia.


A psicóloga Clínica Claudinéia Soriano explica como lidar com a saúde mental em tempos de pandemia. Confira no vídeo:



Edição: Paulo Pessôa Neto