Modificação corporal: uma nova forma de expressão

02.05.2017

 

 A alteração é cada vez mais usada para demonstrar sua individualidade e desafiar limites 

 

 

               João Ochetski, um dos mais jovens modificados do Brasil e da América Latina. (Crédito: Divulgação/Carlos Poly)

 

 

Tornou-se muito comum encontrar pessoas que tenham tatuagens espalhadas pelo corpo, piercings e alargadores na orelha. Com o passar dos anos, parte do preconceito contra essas práticas foi gradativamente sendo abandonado. Porém, muitos resolvem modificar seus corpos de uma forma mais radical, prática é chamada de body modification ou modificação corporal, como é chamada aqui no Brasil.

 

Sendo mais popular em São Paulo, a prática já possui adeptos em todo o Brasil. João Carlos Ochetski, de 24 anos, Marilyn Ribas Costa, de 23 anos, e Caroline Lupinski, de 31 anos, têm algo em comum: possuem “corpos modificados” e são proprietários ou sócios de estúdios de tatuagem e body piercing, o que os torna pessoas muito conhecidas no cenário alternativo local.

 

Ochetski é considerado um dos mais jovens “modificados” do País, sendo o mais jovem do Paraná. Seu primeiro procedimento foi aos 18 anos de idade. Atualmente, ele possui o total de seis modificações espalhadas pelo corpo, sendo elas: dois horns (chifres) implantados de forma subcutânea (abaixo da pele) na testa, dois implantes nas mãos, dois nos braços e também tongue splitting (língua bifurcada), além de ter 95% do corpo coberto por tatuagens. É uma referência no meio - muitas vezes, o jovem recebe convites para participar de eventos relacionados ao assunto, recebendo cachê para fazer aparições nesses locais, onde geralmente acontecem sessões de fotos e divulgações de produtos pertinentes ao universo das tattoos e bodypiercings

 

Questionado sobre quais foram os motivos que o levaram a querer modificar o corpo tão radicalmente, ele diz que o ponto de partida foram as tatuagens e daí surgiu o interesse em começar a realizar os implantes subcutâneos. Os procedimentos foram feitos sem nenhum tipo de anestesia. A pele é cortada, descolada e os implantes são colocados; depois são dados alguns pontos para fechar os cortes. Já no caso da língua bifurcada, a repartição foi feita com o auxílio de um bisturi, sendo que depois, de forma semelhante aos implantes, também são dados pontos.

 

Ochetski também nos fala que sua família aceitou tudo tranquilamente desde o começo, mas que isso infelizmente é raro entre os adeptos da modificação corporal. O maior preconceito vem, geralmente, das pessoas de mais idade, que enxergam as mudanças com estranheza e, algumas vezes, até com repulsa. Porém, o jovem tatuador acredita que o cenário de hoje está muito mais “liberal” do que há alguns anos, e que as pessoas estão um pouco mais abertas em relação a isso. Ele também deixa um alerta para os que querem começar a se modificar e fazer algum procedimento dessa magnitude: “Pensem muito bem, pois é um caminho sem volta”. 

                  

 

 

Garotas modificadas

 

 

 Marilyn Ribas Costa tatuadora e body piercer possui quatro modificações no corpo (implantes de silicone na mão, braços e peito), além da língua bifurcada. A sua primeira modificação foi aos 19 anos e a partir daí não parou mais. A garota também ostenta grande parte do corpo tatuado além de alargadores nas orelhas e diversos piercings, compondo um visual único.

 

A modificação entrou em sua vida quando foi tatuar os dedos com um amigo tatuador, em meados de 2012. Ao ver um implante que ele tinha na mão, ela o achou muito bonito, pois nunca havia visto nada parecido pessoalmente, apenas por fotos. Marilyn também teve uma boa aceitação por parte da família, apenas sua mãe a questionou se aquilo era o que ela realmente queria. Quando fez sua primeira modificação, ela já estava trabalhando com tatuagens e piercings em seu próprio estúdio, portanto, nada afetou sua vida profissional já que ela sempre viveu disso.

 

Em relação ao preconceito, a jovem afirma que praticamente todo mundo que é “diferente” já sofreu ou sofrerá algum tipo de discriminação. Isso tudo se deve, na opinião dela, a falta de informação das pessoas, já que para elas tudo o que foge do padrão é sempre visto com suspeitas. Assim como João Ochetski, Marilyn também concorda que o preconceito diminuiu muito com o passar do tempo, mas ele ainda faz presente na sociedade. 

 

Ela aconselha a todos que querem seguir o mesmo caminho que primeiro tenham certeza do que querem fazer da vida. Porque, infelizmente, toda e qualquer modificação que for feita pode afetar muito a vida profissional e pessoal do indivíduo. “O ideal é nunca começar tão cedo, esperar até fazer 18 anos para aí sim decidir se isso é ou não bom para você, procurando sempre conversar com a família, pois fazer algo escondido é pior e pode ser muito perigoso”. Marilyn também recebe muitos convites para participar de eventos, pois quanto maior o número de procedimentos, geralmente, maior será o volume de convites recebidos. Algo muito vantajoso para o profissional, que poderá divulgar sua arte e o nome do seu estúdio de forma mais abrangente.

 

 Em entrevista à EntreVerbos, Caroline Lupinski, uma body piercer que aprendeu grande parte do que sabe com João Ochestki, afirma que, muitos consideram microdermais e piercings, como sendo a mesma coisa. Ela conta que a maior diferença é que no piercing existe entrada e saída, já no caso do microdermal só há entrada e o mesmo fica embaixo da pele, só podendo ser retirado com procedimento cirúrgico.

 

Atualmente, Caroline é proprietária de um estúdio, chamado Sponja Tattoo,com seu marido e tatuador Rafael Vulcanis de Moraes Caroline. A profissional conta que o procedimento de modificação é feito com um instrumento chamado punch, que seria um bisturi redondo, que é introduzido na pele, retirando o pedaço no qual seria introduzido o implante em questão. No entanto, a body piercer prefere usar uma técnica que faz uso de uma agulha mais grossa, no qual a pele é perfurada, causando o descolamento da mesma e só então seria introduzida a peça de metal com o auxílio de alicates.

 

Caroline ressalta que suas peças são feitas quase que exclusivamente de titânio, pois é um metal cujas chances de infecção ou rejeição pelo organismo humano são quase inexistentes, não causando assim complicações no pós-procedimento. Ainda, segundo ela, por ser um procedimento “menos invasivo”. O mesmo é praticamente indolor  e pode ser comparado a um reles beliscão.

 

A profissional ressalta ainda que procurar um local correto e um profissional realmente qualificado é essencial para que não ocorram “acidentes” ou contaminações, já que se trata de um procedimento invasivo, existindo casos de pessoas que perderam a orelha e que tiveram de substituir por próteses, devido a necroses. Os principais cuidados, após a colocação de um microdermal, seriam evitar ao máximo mexer no local e usar o curativo até o prazo certo, seguindo sempre as orientações do profissional que realizou tudo.

 

Para quem quiser saber mais sobre modificação corporal, seguem os links dos respectivos estúdios dos entrevistados: Charles Tattoo Mermaidink Studio e Sponja Tattoo.

 

 

 

 

 

Um ponto de vista psicossocial

 

De acordo com o psicólogo Flávio Obladen, estamos ainda em um país cercado por padrões corporais impostos à sociedade, onde a mídia continua a determinar muito do que é bom ou correto. Em proporção mundial, a imagem individual facilmente se perde e é vendida como fantasiosa por meio de sites de relacionamento, nos quais  há preocupação demasiada em publicar a melhor foto, a fim de expressar algo que nem sempre é verdade, para mascarar a personalidade.  

 

No entanto, juntamente com estes padrões que são passados, estão os meios até pouco tempo atrás compreendidos como “alternativos” de transparecer nosso visual. Hoje em dia alguns deles viraram moda, como tatuagens, piercings, cabelos pintados, etc., que artistas, de modo geral, usam como mais uma forma de se expressar.

 

Este estilo que era compreendido como alternativo até então é muito praticado por pessoas que se mostram corajosos o suficiente para ousar, inovar e expressar o seu verdadeiro eu de modo radical, quer seja por meio de tatuagens, piercings, implantes subcutâneos, dentre outros.  Porém, existem pessoas que o fazem por impulso, sem medirem consequências de tais atos, muitas vezes irreversíveis, ou simplesmente por uma rebeldia sem causa, ou influência externa de algo que não os representa.  É aí que o ser humano facilmente erra e se perde, significando puramente falta de maturidade.

 

De acordo com o psicólogo, o tema infelizmente ainda enfrenta o preconceito, quer seja em ambiente laboral, familiar, entre outros meios sociais.  O fato é que não se pode julgar alguém por aparência, pois beleza e gosto pessoais são relativos e, assim, precisam ser compreendidos.  Por fim, vale lembrar que ser quem você realmente é, em sua unicidade, é o mais importante para sentir-se bem e seguro consigo mesmo.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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