Como as redes sociais impulsionam o protagonismo feminino

 

Redes sociais digitais, grupos online e sites são ferramentas que facilitam o empoderamento feminino e o ativismo digital

 Grupo Clube da Alice no facebook atualmente conta com mais de 500 mil mulheres. (Crédito: Amanda Zanluca)

 

A internet mudou drasticamente nossas vidas, para o bem e para o mal. Uma das mudanças positivas que decorrem dessa tecnologia é no perfil da mulher, que tem encontrado no meio digital e online um espaço propício para desconstruir a velha cena de só expressarem suas ideias na hora do “tricotar” com as vizinhas. Assumindo um perfil mais ativo nas redes sociais, as mulheres, além de fortalecer o espírito de sororidade, também estimulam reações coletivas nos debates gerados na sociedade. 

 

Uma das iniciativas geradas por esse protagonismo é o grupo “Clube da Alice”, criado por uma paranaense e sediado na plataforma Facebook. O grupo, que começou como uma reunião despretensiosa entre mulheres de diferentes profissões, tem como objetivo fortalecer as relações comerciais e compartilhar o apoio entre suas integrantes. Mônica Balestieri Berlitz, 50 anos, é a fundadora e administradora do clube. Fotógrafa e produtora cultural, Berlitz conta como iniciou o grupo e em como ele ajuda no empoderamento das mulheres.

 

“O grupo começou com a minha ideia de reunir amigas para trocarmos informações relevantes na internet, informações de qualidade. Eu já tinha uma revista digital que se chamava Palpite de Alice, e a partir do desdobramento da revista virou o Clube da Alice. O grupo ajuda as mulheres dando um espaço saudável para que seja uma vitrine para elas conversarem e divulgarem os seus produtos e serviços. Com isso, muitas mulheres sem emprego ou que faziam algo bacana dentro de suas casas, tiveram a oportunidade de mostrar para uma quantidade grande de pessoas e a partir disso começarem seus próprios negócios”, afirma ela. 

 

O grupo é integrado por mais de meio milhão de mulheres, das quais 83% são de Curitiba e região metropolitana. Oferecendo uma diversificada gama de serviços como artesanato, culinária e outros tipos de produtos à venda para toda a comunidade, o clube se mostrou, por meio das mídias sociais, um espaço eficiente de oportunidades de negócio para vender produtos e serviços, ensinando as mulheres como ganhar um dinheiro extra. Berlitz conta sobre os relatos e efeitos positivos que o grupo gera para as participantes. 

 

“O efeito prático do grupo acontece no dia a dia. Em cada post a partir do momento que uma mulher posta um produto e a outra compra, o efeito prático já aconteceu. E relatos são vários que a gente tem. Eu gosto de uma história que exemplifica bem o que é o clube, que é da Camila Esteves Domingues, do Império do Brigadeiro. Ela começou como tantas outras, ela e o marido estavam sem emprego, mas ela fazia um doce bacana e começou a postar no clube. Só que ela conseguia se diferenciar fazendo um doce diferente, chamando atenção em seus posts. E esse negócio começou na garagem da casa dela, tomou conta da casa toda e ela abriu uma confeitaria no bairro. Hoje ela está abrindo a primeira filial no Batel e já tem um projeto de expansão para o shopping. Então, Camila é um dos exemplos entre tantos outros”, conta Berlitz.

 

Com o intuito de conectar e apoiar mulheres, Berlitz explica que não tinha intenção de mudar nada, mas que sabe que o grupo gera um ciclo positivo entre mulheres. “Hoje a gente sabe que o grupo muda a vida das pessoas de várias maneiras, mas essa não era a intenção inicial, isso foi uma coisa orgânica que aconteceu”, conta ela complementando com um exemplo que sintetiza a solidariedade e o engajamento das mulheres do grupo. “Há também o caso da Fabiana, que quando estava fazendo tratamento de câncer de mama, o médico pediu que ela começasse a caminhar, mas ela não tinha amigas para caminhar. Ela fez um post (no grupo), e as meninas se reuniram e formaram um grupo de mais de 200 mulheres que apoiaram ela nesse processo. E hoje ela não só está curada, como acabou se apaixonando pelo esporte virando uma corredora”, finaliza a fundadora do grupo.

 

Do micro negócio à pautas sociais, as redes sociais se tornaram um espaço para as mulheres se expressarem e defenderem seus direitos atingindo um grande público. Um dos exemplos de movimento que se amplifica pelas redes sociais é a Marcha Mundial das Mulheres. O movimento surgiu de uma manifestação realizada em 1995, em Quebec, no Canadá, quando 850 mulheres marcharam 200 quilômetros pedindo, simbolicamente, “Pão e Rosas”. Após isso, as mulheres em Quebec buscaram contatos com organizações em vários países, e no Brasil fizeram contato com as representantes da Central Única das Trabalhadoras e Trabalhadores (CUT). A partir desse contato passou a se pensar em como seria esse lançamento e a construção da marcha no Brasil, sendo no ano de 2000 que o movimento teve um grande alcance, dando origem à construção da Marcha Mundial das Mulheres como um movimento internacional.

 

Ellyng kenya dos Santos, 25 anos, que faz parte da coordenação estadual da Marcha Mundial das Mulheres, explica sobre quais são os objetivos e importância do movimento para o empoderamento das mulheres. “As nossas bases de debate são bem contundentes e tem uma perspectiva um pouco mais marxista. Elas são bases em que a autonomia financeira das mulheres é o central, o debate sobre o direito aos nossos corpos e nossos direitos sexuais e reprodutivos. O direito ao nosso território que também está ligado ao direito ao corpo e a nossa vida, o debate da desmilitarização. Alguns debates sobre o mundo do trabalho que são essenciais para nós, e alternativas ao sistema capitalista”, conta ela.

 

Sendo as redes sociais um dos principais meios para se propagar o movimento, Santos confessa que apesar de contribuir para a causa, se preocupa por também ser um meio de propagação de informações falsas. “A Marcha assim como diversos outros movimentos que já tem algum tempo de existência, vêm se adaptando ao longo da história a essas novas formas de se comunicar e levar informações para as mulheres. E as redes sociais tem como uma perspectiva, em como fazer o uso dela para que outras mulheres possam receber essas mensagens e essas outras idéias que nós temos colocado para a sociedade. Além da necessidade hoje de você conseguir atingir muitos públicos através de uma rede específica. Mas ao mesmo tempo que contribuí, são avanços um tanto quanto perigosos em algumas perspectivas, porque você tem acesso a muita coisa e nem sempre essas coisas são verdadeiras. E a gente vive um período em que temos que ficar fazendo esse embate constante entre o que é verdadeiro ou não, e ficar reafirmando os nossos posicionamentos”, finaliza Santos.

 

Marcha Mundial das Mulheres movimento internacional que surgiu de uma manifestação realizada em 1995 no Quebec. (Crédito: Reprodução/Facebook)

 

Um movimento em prol do amor próprio

 

Juntamente com os movimentos de empoderamento feminino e das pautas identitárias, surge também o Body Positive, que na tradução literal do inglês significa “corpo positivo”. Esse é um movimento para desconstruir o ideal de beleza imposto pela mídia, para passar a descobrir aspectos positivos do seu corpo que por muito tempo foram considerados "fora do padrão".  

 

As redes sociais são grandes aliadas desse movimento, onde encontramos bons exemplos de diversos tipos de body positive, como o perfil no Instagram da criadora de conteúdo, Raissa Neves Galvão de Azevedo, de 24 anos. Formada em Jornalismo e Designer de Moda, Raissa começou com um blog aos 15 anos. No início o foco era apenas montar bazar, brechós e transformações de roupas. Segundo ela, mesmo sendo gorda, a pauta corporal não estava nem perto de surgir em seu blog. 

 

“Mesmo sendo uma mulher gorda postando fotos de looks, eu não me aceitava e não estava feliz com o meu corpo. Mas o body positive começou a entrar na minha vida quando eu tinha de uns 19 para 20 anos. Quando eu desisti de uma cirurgia bariátrica, decidi me dar mais uma chance, mas dessa vez não era para emagrecer, mas para me amar. Demorou mas deu muito certo e valeu muito a pena”, conta a produtora de conteúdo.

 

Criando uma rede de amor, Raissa explica que não começou a falar sobre body positive porque se amava, mas porque precisava aprender a se amar. “Como o meu Instagram sempre foi bem pessoal, conforme fui aprendendo sobre amor próprio fui dividindo também. Essas discussões cresceram bastante quando nas férias de 2017 viajei para a região dos lagos com os meus amigos, e tive que lidar com o ficar de biquíni o tempo todo na frente de um bando de gente magra. Eu era a única mulher gorda e ao invés de guardar minhas inseguranças, fui tentando compartilhá-las e com os textos perceber jeitos de transformá-las”, explica ela.

 

O perfil de Raissa Galvão (@rayneon) no Instagram atualmente conta com mais de 200 mil pessoas. Seguidores ao qual a criadora de conteúdo é muito grata e feliz por saber que tantas pessoas estão se preocupando com novas narrativas e estão buscando por mais representatividade. “Quando se é mulher, você passa a vida ouvindo que sua beleza não é o suficiente. Quanto mais fora do padrão se é, mais dura são as coisas que você ouve e vive na pele. O movimento body positive ajuda não só as pessoas a amarem seus corpos e olharem para eles de forma positiva, mas ensina a olhar para o outro com mais carinho e gentileza”, completa ela.

 

A jornalista acredita que representatividade e sororidade muda tudo, e ajuda a evitar problemas relacionados a auto estima. “Juntas somos mais fortes. Nem sempre as pessoas ao nosso redor entendem nossas pautas e com o apoio de outras mulheres tudo fica mais fácil. Já estamos cansadas de rivalidade feminina quando a gente pode se unir e crescermos juntas”, finaliza ela.

 

Raissa Galvão, criadora de conteúdo possui mais 200 mil seguidores em seu perfil no instagram. (Crédito: Arquivo Pessoal)

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