• Por Amanda Zanluca

Terapia online: a saída para manter a saúde mental em tempos de pandemia

Profissionais e pacientes recorrem à tecnologia frente ao crescente aumento de problemas mentais na sociedade.


Os dez transtornos mentais mais comuns, sendo fundamental em qualquer um dos casos buscar tratamento especializado. (Crédito: Amanda Zanluca)


Tudo começou ainda na fase de transição da infância para a adolescência. Em um cenário de intensas transformações, acabar descobrindo um transtorno mental e precisar tratar com medicamentos pode parecer irreal para os mais céticos, porém, é algo mais comum do que imaginamos. E se para Caio Rodrigo Pizi Coas a depressão veio ainda no percurso para a vida adulta, foi lá na casa dos 20 e poucos anos, logo após a desistência da faculdade, que as crises de ansiedade e síndrome do pânico atingiram seu ápice. “Na noite que desisti do curso, de madrugada, me deu umas das piores crises, porque não sabia lidar. A partir dali, começou a ansiedade mais forte e síndrome do pânico mais constante. Então, tive que buscar terapia e reforçar os medicamentos”, conta ele. Atualmente com 34 anos, o auxiliar administrativo mantém há 12 anos em sua rotina o acompanhamento com profissional.


Porém, se antes conseguíamos ter um acompanhamento presencial, com a pandemia do novo Coronavírus as pessoas precisaram se adaptar à terapia on-line. Um novo método que tem dado certo, como mostra a pesquisa realizada pela plataforma de contratação de serviços GetNinjas, onde a demanda por psicólogos on-line aumentou em 32% entre março e setembro de 2020. Receber o diagnóstico de um transtorno mental e procurar por ajuda profissional tem se tornado a realidade para muitos brasileiros. Segundo a pesquisa do instituto Ipsos, encomendada pelo Fórum Econômico Mundial e cedida à BBC News Brasil, 53% dos brasileiros declararam que seu bem-estar mental piorou um pouco ou muito no último ano.


Caio Rodrigo Pizi Coas, 34 anos, paciente que precisou se adaptar a terapia on-line. (Crédito: Arquivo Pessoal)


A terapia on-line é um formato relativamente recente, tendo sido regulamentado no Brasil somente no ano de 2018, momento em que poucos profissionais optaram por atuar desta forma. Porém, com a pandemia, profissionais e pacientes precisaram aderir a essa modalidade de atendimento que apesar de nova, apresenta a mesma eficácia, vínculo, qualidade e ética do atendimento convencional. A psicóloga Cléo de Paula, que já atua na área desde 2017 e tem atendido de forma on-line, explica como funciona. “Após o contato do cliente, a prestação de serviço é formalizada via contrato que estabelece os direitos e deveres das partes, regulando a forma como o trabalho será desenvolvido, considerando questões como: meio de comunicação a ser utilizado no atendimento, duração e frequência do atendimento, sigilo profissional; cuidados com o ambiente para a prestação do serviço, remuneração profissional, cancelamento da sessão, falta, entre outros. O atendimento ocorre em tempo real em conversas por meio do computador ou celular, sendo possível agendar as sessões para os horários mais convenientes para o cliente”, esclarece ela.


Porém, segundo Paula, é importante que alguns cuidados sejam tomados durante a realização das sessões on-line. “Cabe ao profissional se atentar para variáveis específicas do ambiente de trabalho, tais como: excesso de ruído, animais de estimação, circulação de outras pessoas, entre outros. Também é importante ter um bom antivírus e internet de qualidade, fazer utilização de fones de ouvido e acordar com o(a) cliente que esteja em um ambiente privativo e que tome essas medidas”, orienta.


A modalidade que tem tido um crescimento expressivo durante a pandemia, tem como vantagens os baixos custos em investimentos, comparado ao atendimento presencial, e também a ampliação de acesso das pessoas aos serviços de saúde mental.


Ouça o áudio com indicações de terapia online:



Para Luzia Carmem de Oliveira, psicóloga e colaboradora da Comissão de Psicologia Clínica do Conselho Regional de Psicologia do Paraná (CRP-PR), é preciso levar alguns fatores em consideração na terapia on-line. “Para pensarmos em resultados de um processo terapêutico partimos do primeiro ponto que é: Qual a demanda do paciente? O que o levou a buscar esse trabalho e qual sua expectativa? Inúmeras vezes ao iniciar uma terapia a própria demanda vai se modificando e o trabalho passa por diversas etapas. Para que seja possível que um trabalho aconteça, é necessário a construção do vínculo entre paciente-profissional. No trabalho on-line, apesar de não haver a presença do corpo, temos a voz e pode-se ter a imagem (para quem queira)”, comenta.


Outro ponto que Oliveira destaca é o grau de aprofundamento que os profissionais podem obter nos acompanhamentos on-line. “Difícil essa questão por se tratar exatamente da subjetividade que envolve o trabalho em si. Mesmo no presencial a profundidade do trabalho sempre vai na medida em que o paciente suporta trabalhar suas questões e na medida em que o profissional pode estabelecer sua escuta para o sofrimento do paciente. Enquanto profissionais sempre devemos estar atentos até onde o paciente consegue seguir”, esclarece. “De todo modo, muitos pacientes vem respondendo bem, aderindo ao trabalho e isso também abriu possibilidades para pessoas que talvez não conseguissem presencial. A psiquiatria também está atendendo on-line, inclusive com emissão de receitas. É algo que faz parte da nossa realidade”, finaliza Luzia.


Além da garantia que a terapia on-line é devidamente autorizada e regulamentada pelo Conselho Federal de Psicologia (CFP), o paciente pode ainda solicitar que o profissional mostre sua carteira do conselho ou também pode entrar em contato com o CRP e confirmar o cadastro. Há ainda uma forma mais rápida e fácil para a verificação que é acessando pelo site com o nome completo do profissional.


Atendimento psicológico gratuito


Apesar de, no Brasil, os atendimentos psicológicos acabarem sendo pouco acessíveis, por causa do isolamento social devido a pandemia do Covid-19, diversas iniciativas on-line e gratuitas foram criadas a fim de fornecer atendimento profissional para quem precisa. No Paraná, além das opções de atendimento psicológico oferecidas pelo Sistema Único de Saúde (SUS), foi criado em março de 2020 o projeto Saúde Online Paraná. Uma parceria entre o governo do Estado, o CRP e também psicólogos voluntários. Pelo aplicativo, a população consegue ter atendimento psicológico mas também para outras especialidades médicas. Outro programa lançado no começo da pandemia é o Telepaz, criado pela prefeitura de Curitiba e que oferece serviço de atendimento pelo telefone destinado a pessoas ansiosas que sintam necessidade de conversar.


Além dos serviços oferecidos pelo governo e pela prefeitura, há ainda a opção de universidades paranaenses que também oferecem atendimento psicológico de forma acessível. Instituições como a Universidade Federal do Paraná (UFPR), UniBrasil, Uniandrade, Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR) e o Centro Universitário UniDomBosco, oferecem serviços de psicologia nas clínicas vinculadas às universidades. No entanto, nesse momento de pandemia, não são todas as universidades que têm oferecido a opção de consulta on-line (confira na tabela abaixo).


Importante ressaltar que a modalidade de terapia on-line faz parte do chamado “Telemedicina”, termo usado para descrever toda prática médica que utiliza a Tecnologia da Informação e Comunicação (TIC). Esse segmento da saúde é garantido pelo Conselho Federal de Medicina (CFM) e também reconhecido pela Organização Mundial da Saúde (OMS), desde a década de 1990.